De acordo com um dos maiores economistas portugueses vivos, Ernâni Lopes, ministro do Governo de Mário Soares que preparou a entrada na então CEE, “…todos os momentos decisivos, de crise e de afirmação da existência de Portugal, mostram o peso concreto (político, económico e cultural) da utilização desta dinâmica geopolítica da contraposição entre o marítimo e o continental em que, do ponto de vista analítico, encontramos a chave da compreensão do fenómeno português: a única estrutura política, saída da Reconquista Cristã na Península Ibérica, que mantém a sua independência política face ao poder aglutinador de Castela.”
Se o país actual, como afirma António Barreto na sua série televisiva, nada tem a ver com o país de há 50 anos atrás, essa transformação foi no mínimo, contraditória e pontuada por mal-entendidos, sobretudo, no tocante à construção de uma matriz identitária.
A matriz identitária de uma sociedade, ou de uma organização, é desenhada pelos diversos posicionadores a que recorrem os povos, ou as pessoas, para se orientar e progredir.
Se analisarmos os factos no tempo, a opção da abertura de Portugal ao exterior, no início dos anos 60, vingou entre as elites económicas mas, sempre foi considerada perigosa pelos que nela viam o fim da nacionalidade. De facto, a matriz identitária do Estado Novo nunca considerou a comunicação com a Europa como traço estratégico.
Salazar recusou-se sempre a apanhar o Sud-Express na estação de Santa Comba Dão. Foram décadas de autarcia e obscurantismo na vida de um povo a quem tinha ficado pouco a que se agarrar. Sem o fado, sem o futebol e sem Fátima, a matriz não teria resultado.
A matriz identitária, definida pelo financista beirão, sobreviveu em Portugal nos últimos cinquenta anos porque nenhum movimento ideológico ou partidário conseguiu criar outra para se constituir como alternativa.
O 25 de Abril de 74 resultou da erosão da matriz salazarenta mas não a substituiu nem extinguiu, tentou escondê-la sem criar alternativas credíveis.
O 25 de Novembro de 75 foi um evitar de guerra civil a que se seguiu, devido à ascensão e manutenção de Ramalho Eanes, um fogacho identitário que desembocou no PRD, de Manuel Martinho, que morreu antes de se constituir como alternativa.
Mário Soares tentou pegar nas pontas da matriz mas enredou-se na necessidade de responder às exigências do FMI e da dívida pública, colocando-nos na CEE. Não houve tempo, nem arte para mais nada.
Cavaco Silva, o homem que não lia jornais portugueses mas era aceite lá fora. Sendo, também ele, resultado da matriz supracitada, quase que reunia as condições para redesenhar a identidade portuguesa. Houve dinheiro, estabilidade governativa e carisma pessoal. No entanto, faltou massa crítica aderente. Cavaco não conseguiu ganhar os intelectuais, com excepção, talvez, de Agustina Bessa Luís, Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura. Não foi suficiente e, sobretudo, o tempo passava sem se pegar na essência da matriz identitária portuguesa: o estar no mundo.
Virados sobre si próprios, os portugueses demoram tempo a aceitar que estão no mundo, para o mal e para o bem. Os milhões de emigrantes e, mais recentemente, o mediático José Mourinho, trouxeram ao de cima a capacidade de sabermos estar no mundo.
Urge apostar numa matriz que nos permita sem atavismos, outra vez, estar no mundo.
É que a matriz é muito mais que um ou alguns traços avulsos. É, fundamentalmente, um modelo mental que cada um de nós perceba e utilize no dia a dia para sermos felizes.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
sábado, 10 de outubro de 2009
O meu desejo
O meu desejo, neste momento, é contribuir para a divulgação de uma terra de que gosto e à qual ainda não voltei desde 1983. Já se perfilaram oportunidades mas, não resultaram. No entanto, a chama continua acesa. Por isso, decidi criar este blog e publicar excertos de uma publicação mais ampla que pretendo ir divulgando.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
morropeixe
Finalmente conseguimos!!
Esta frase ilustra a superação de uma fase das vidas de pessoas normais e simples. Quando se pensa no que já passou constata-se que se está “noutra”. O ditado popular “Quem espera sempre alcança” só tem sentido se for conjugado com o sucesso. E, às vezes, já é tarde mas, “mais vale tarde que nunca”. Enfim, eles tinham conseguido aquilo que já não valorizavam como no início.
O projecto arrastou-se tanto tempo, os avanços e recuos sucediam-se com tal ritmo, que se correu o risco de perder muito mais a oportunidade individual do que a colectiva.
Nesses dias, a velocidade dos meios de comunicação não os penetrava com a pressão do “acontece ontem”. O tempo ia passando e moendo as suas vontades. Foram longos meses de espera, com a burocracia a dar forma à falta de interesse em aceitar a diferença.
O projecto era objectivo e exequível. Uma ONG (Organização não Governamental) portuguesa, com contactos preferenciais na recém (12 de Julho de 1975) designada República Democrática de São Tomé e Príncipe, comprometeu-se a criar uma espécie de Escola do Magistério Primário na cidade-capital São Tomé.
No entanto, situação normal na altura, a ONG não dispunha de recursos próprios necessários para suportar os encargos financeiros da operação. Solicitou ajuda ao Governo português, dirigiu as negociações com o país de acolhimento e escolheu a equipa de trabalho: uma professora primária experiente, uma psicóloga, uma actriz com formação superior, um professor de Português, um professor de Ciências Naturais e um professor de Matemática.
Ao longo do tempo de espera realizaram-se várias reuniões preparatórias de modo a que a equipa estivesse preparada e coesa na chegada ao terreno.
O Gabinete para a Cooperação do Ministério dos Negócios Estrangeiros (na altura o Ministro era Medeiros Ferreira) reconhecia o carácter inovador do projecto mas, como se sentia ultrapassado diplomaticamente, hesitava na sua aceitação política e financeira, adiando, sistematicamente, a autorização de partida.
O II Governo Constitucional vacilava, cioso da exclusividade dos contactos com as ex-colónias, na senda da coligação PS-CDS, travando uma iniciativa que se revelou única, pioneira e não repetida, que se saiba, no relacionamento cultural com a África de expressão portuguesa.
Mas, até este governo não durou o tempo necessário para decidir sobre o caso. Ramalho Eanes exonerou o “governo anti-natural” PS/CDS em Julho de 1978, empossou Nobre da Costa como Primeiro-Ministro que, por sua vez, foi substituído em Outubro com a indigitação de Mota Pinto.
Os tempos eram de “consolidação democrática” supervisionada pelo Presidente da República e o MFA/Conselho da Revolução ia perdendo, paulatinamente, o poder derivado do 25 de Abril de 74.
Esta frase ilustra a superação de uma fase das vidas de pessoas normais e simples. Quando se pensa no que já passou constata-se que se está “noutra”. O ditado popular “Quem espera sempre alcança” só tem sentido se for conjugado com o sucesso. E, às vezes, já é tarde mas, “mais vale tarde que nunca”. Enfim, eles tinham conseguido aquilo que já não valorizavam como no início.
O projecto arrastou-se tanto tempo, os avanços e recuos sucediam-se com tal ritmo, que se correu o risco de perder muito mais a oportunidade individual do que a colectiva.
Nesses dias, a velocidade dos meios de comunicação não os penetrava com a pressão do “acontece ontem”. O tempo ia passando e moendo as suas vontades. Foram longos meses de espera, com a burocracia a dar forma à falta de interesse em aceitar a diferença.
O projecto era objectivo e exequível. Uma ONG (Organização não Governamental) portuguesa, com contactos preferenciais na recém (12 de Julho de 1975) designada República Democrática de São Tomé e Príncipe, comprometeu-se a criar uma espécie de Escola do Magistério Primário na cidade-capital São Tomé.
No entanto, situação normal na altura, a ONG não dispunha de recursos próprios necessários para suportar os encargos financeiros da operação. Solicitou ajuda ao Governo português, dirigiu as negociações com o país de acolhimento e escolheu a equipa de trabalho: uma professora primária experiente, uma psicóloga, uma actriz com formação superior, um professor de Português, um professor de Ciências Naturais e um professor de Matemática.
Ao longo do tempo de espera realizaram-se várias reuniões preparatórias de modo a que a equipa estivesse preparada e coesa na chegada ao terreno.
O Gabinete para a Cooperação do Ministério dos Negócios Estrangeiros (na altura o Ministro era Medeiros Ferreira) reconhecia o carácter inovador do projecto mas, como se sentia ultrapassado diplomaticamente, hesitava na sua aceitação política e financeira, adiando, sistematicamente, a autorização de partida.
O II Governo Constitucional vacilava, cioso da exclusividade dos contactos com as ex-colónias, na senda da coligação PS-CDS, travando uma iniciativa que se revelou única, pioneira e não repetida, que se saiba, no relacionamento cultural com a África de expressão portuguesa.
Mas, até este governo não durou o tempo necessário para decidir sobre o caso. Ramalho Eanes exonerou o “governo anti-natural” PS/CDS em Julho de 1978, empossou Nobre da Costa como Primeiro-Ministro que, por sua vez, foi substituído em Outubro com a indigitação de Mota Pinto.
Os tempos eram de “consolidação democrática” supervisionada pelo Presidente da República e o MFA/Conselho da Revolução ia perdendo, paulatinamente, o poder derivado do 25 de Abril de 74.
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