quinta-feira, 19 de abril de 2012

A influência na liderança

É na influência e não no controlo das mentes que a liderança se fortifica.
Se se conseguir que os outros, que interagem connosco, atinjam os objetivos que correspondem à nossa visão como se da sua própria se tratasse, estamos a contribuir para a liberdade e para a realização do projeto de vida de todos. Ou seja, não podemos confundir liderança com títulos ou postos hierárquicos. Se houver autenticidade, qualquer um, desde que faça ouvir a sua voz, pode ser um líder. O líder autêntico evidencia caraterísticas que passam pela autonomia e pela assunção do seu verdadeiro Eu:
1. Ter Visão. Não só na aceção de vislumbrar futuros mas também no discernimento das situações complexas com que se depara e na sabedoria com que se orienta para delas extrair o melhor para todos.
2. Demonstrar Iniciativa. Os líderes são sempre os primeiros quando é preciso dar o exemplo a seguir. Não reagem, são proactivos. Antecipam as dificuldades e preparam soluções que sirvam a todos.
3. Exercer Influência. A raiz etimológica da palavra é a mesma da designação científica para a gripe – influenza. Logo, podemos metaforicamente apelidar os líderes de “contagiosos”, na medida em que “arrastam” os outros para os valores e visão que assumem. Fazem os outros agir como se eles próprios o decidissem.
4. Alcançar Resultados. Principalmente aqueles que se conseguem pela mudança de atitude dos seguidores. Se não houver qualquer mudança em resultado da ação do líder não se pode falar de liderança.
5. Ser Integro. Fazer o que diz que vai fazer, respeitando os valores dos outros e os seus próprios. Não pactuar com aquilo que pode ser politicamente correto mas que não corresponde ao sentido da ação desenvolvida.

A autenticidade

A autenticidade é confundida com uma marca de personalidade que se revela nos atos simples da vida. Ou seja, ser autêntico é ser genuíno (Avolio, 2007) e isso, é complexo.
De facto, as personalidades autênticas demonstram-se no exemplo de credibilidade, verdade e liderança que transmitem às outras.
Os personagens autênticos afirmam-se face aos outros pela sua capacidade de resiliência e de encaixe das situações que se vão sucedendo e que exigem força de vontade para serem ultrapassadas.
O estado atual das coisas, das vivências e das práticas, é tendencialmente negativo. A importância conferida e subjacente ao lado material da vida está a conduzir quem não se conhecer a si próprio para o vazio.
Sem bens materiais e sem capacidade aquisitiva para os obter, os seres humanos não encontram saída para a satisfação dos seus desejos. Na voragem do “ter” perdem rapidamente a sua autoconsciência, deixam de proceder ao tratamento equilibrado da informação, colocam em causa a sua estrutura moral e consideram sem valor a transparência relacional. É a sobrevivência animal. O salve-se quem puder. O mundo cão. Assim, tais seres, se e que o continuam a ser, deixam de poder ser autênticos líderes como pressupunham Walumbwa, Avolio, Gardner e outros colegas (2008, p.92).
Ser um líder não é só ter jeito, estilo ou demonstrar tendência para o ser. O líder tem que mostrar capacidade, inata e/ou aprendida. O líder tem que ser competente e capaz de desenvolver com eficácia as suas tarefas. Mas, fundamentalmente, a liderança é uma forma de comportamento. É uma forma de relação que influencia os outros a seguir determinado caminho no sentido de alcançar objetivos partilhados.
A liderança exige uma relação diádica líder x seguidor baseada na interação e na ética.
Uma relação orientada para a mudança positiva no sentido do bem geral e que nos ultrapassa enquanto seres individuais.
Por isso, quando ouvimos falar de liderança temos que estar atentos pois, normalmente, estamos perante líderes que não percebem a importância da liderança na mobilização dos outros. Como diriam Kouzes e Posner, no prefácio do seu livro (p.13), “a abundância de desafios não é problema. É a forma como respondemos aos desafios que conta. Com as respostas que damos aos desafios, podemos agravar seriamente ou melhorar substancialmente o mundo em que vivemos e trabalhamos”.
Sobretudo, a forma como restauramos e sentimos a esperança que nos faz criar um verdadeiro sentido para a vida. De fato, o que precisamos é que alguém nos faça acreditar que somos capazes de mudar o nosso destino, principalmente quando tudo nos parece correr negativamente.
Kozes e Posner (2009, p.15), consideram que o seu livro “Desafio da Liderança foi escrito tanto para reforçar” as capacidades de cada um de nós, como também para nos “levantar a moral”.
É exatamente isso que se pretende neste momento: levantar a moral! Como?
Queremos, definitivamente, quem nos indique não só o caminho mas, sobretudo, nos incuta confiança e nos ajude a ser líderes de nós próprios, ou seja que liberte ou ajude a libertar o líder que existe em cada um de nós.
Queremos que nos sirvam de exemplo e nos mostrem visões possíveis de futuro.
Desejamos que nos tratem como pessoas e que trabalhem com gosto naquilo que fazem.
“Há tanto trabalho extraordinário que precisa de ser feito” (Kouzes e Posner, p.19). Esse trabalho extraordinário, centra-se, em nossa opinião, na definição dos valores que estão na base da nossa atuação enquanto líderes. Valores que, se forem partilhados, contribuirão para definir melhor o objetivo comum.

sábado, 7 de abril de 2012

Ensaio sobre a dádiva

Não há, até ao momento, outra forma, simultaneamente emocional e racional, de encarar a repartição e a dádiva. Cortella, um filósofo palestrante e teólogo brasileiro, apresenta uma espécie de ditado que nos pode ajudar a perceber esse tipo especial de relacionamento humano: “Quem sabe reparte, quem não sabe procura”.
De facto, é com humildade que o ser humano consegue chegar mais longe. Se detivermos conhecimento que mais ninguém tem, é positivo repartirmos esse conhecimento com os outros para conseguirmos todos chegar mais longe.
Tal atitude justifica-se por múltiplas razões.
Primeiro porque a nossa forma de percecionar esse conhecimento é única mas não necessariamente a melhor de todas. Há que a colocar em diálogo com o desconhecimento dos outros para, junto deles, aquilatar a sua profundidade e importância. O nosso conhecimento só ganha autêntica dimensão quando, colocado à disposição dos outros, se potencia e chega junto de mais pessoas transformando-se em conhecimentos novos.
Por outro lado, numa sociedade do conhecimento, quem tem conhecimento tem poder. Poder no sentido da autonomia que o ser humano passa a possuir a partir do momento que interioriza conhecimentos. Autonomia de decidir o seu percurso de vida, de assumir a responsabilidade pelas suas decisões e de refletir sobre a sua existência e a dos outros. Um poder que considera os outros como destinatários das nossas reflexões, as quais nos permitem conviver melhor, é um poder que serve a todos.
Finalmente, nós nunca estamos totalmente satisfeitos. Somos seres inacabados, em trânsito, à procura de explicações para tudo aquilo que nos ultrapassa a racionalização. Só tem sentido continuar a procurar se, nessa tarefa, nos ajudarmos uns aos outros a estar menos insatisfeitos connosco próprios e a racionalizarmos em conjunto.
Sem querer modelar consciências não posso deixar de concluir dizendo que, a melhor forma de nos tornarmos mais ricos e fortes é a partilha dos recursos de que dispomos. A vida de abundância de que fala a Bíblia não é um Paraíso quimérico, é, como dizia Paulo Freire, um “inédito viável”. Ou seja, algo que ainda não existe, porque ainda não chegámos a essa parte do percurso, mas possível de concretizar se o desejarmos e acreditarmos na sua potencialidade.

segunda-feira, 26 de março de 2012

O Senhor JPS

O Senhor José Pereira da Silva, de Carvoeiro, acordou-me às 8 e meia de sábado. É homem para 80 e tal anos, tem figura meã, olhos vivos, chapéu enfiado, casaco coçado, calças de burel e o tradicional guarda-chuva à João Semana.
Quando abri a porta disparou logo:
- “Muito bom dia, meu Senhor. Não tenha medo que não são ladrões. Você é aqui de Santiago ou de Forjães?”
Respondi-lhe meio ensonado: - “O que é que o Senhor quer?”
Fez menção de tirar o chapéu, mantendo-o na cabeça, e foi logo ao assunto:
- “Sabe Senhor, agora com este temporal que veio, houve, lá no Carvoeiro, uma família, que tinha quatro vacas na loja, que lhe caiu a casa em cima. Foram todos para o hospital de Viana do Castelo. O gadinho, a Junta pagou-lhe mas, agora, o povo quer ver s’ arranja, nem que seja, um barraco de madeira para eles se meterem lá dentro. É cagora a mão-de-obra está muito cara e não se pode com ela. Olhe que o padre aqui de Santiago ajudou. Ele diz que pode acontecer a todos. Hoje foram eles, amanhã poderemos ser nós. Olhe que ele deu trinta contos. Veja o que pode dar.”
- “Mas que lata.” – Pensei eu. Com que então, um velho que ainda devia estar no lar da 3ªIdade a comer o pequeno-almoço, estava-me ali a contar uma história do arco-da-velha, com uma capacidade oratória superior à do melhor vendedor de automóveis de luxo, estava a tentar e a conseguir convencer-me que a solidariedade porta a porta ainda pode acontecer.
Então, perguntei-lhe, qual pergunta de controlo: -“ O padre de Quintiães também ajudou?”.
Respondeu-me: - “Quem?”.
Fiquei preocupado. Um homem com aquela cultura religiosa toda não conhecia o padre nem a freguesia de Quintiães. E disse-lhe: - “ Sim, o sr. Padre Américo.”
Desviou a conversa dizendo que eles, a família, estavam desgraçados e que todos nós devíamos ajudar por que isso iria ajudar a descontar nos nossos pecados.
Olhei para aquela figura insólita, pensei no seu ar descontinuado e disse-lhe: - “Você tem cá uma lata!”
- “ Não tenho nada. Já sou velho para isso e, sobretudo, não preciso. É mesmo para os ajudar.”
Passei-lhe para a mão dez euros e, de maneira policial, perguntei-lhe: - “Como é que o Senhor se chama?”
- “José Pereira da Silva.”
Despedi-me dizendo-lhe que aproveitasse o dia para fazer uma boa colecta lá para a família.
Aprumado, atirou-me: - “ Tem filhinhos? Vou rezar para que nada lhes aconteça.”.
Foi-se embora.

O reino da manhosice

“Era uma vez uma pessoa que acreditava nas outras pessoas”.
Era assim uma espécie de “karma”, ou seja, de “cruz” a carregar durante a vida inteira. Quem acredita sempre alcança. No entanto, o ditado é bem diferente.
Estou, como já devem ter reparado, a ironizar com a actual situação de um reino que será país sempre que o desejarmos.
A manhosice que se preza assume-se por inteiro. A manhosice, enquanto projecto de vida, é uma atitude psicológica associada ao sucesso.
Voltemos à nossa estória.
“As pessoas viviam umas com as outras em harmonia e respeito. Existia segurança e tudo o que as pessoas desejavam acontecia.
Era um reino tranquilo, em que a vida se facilitava a ela própria. Tudo corria bem, todos eram felizes. Um dia, algo de estranho aconteceu…
O sol trazia menos luz do que era costume. Todas as pessoas se interrogaram.
– O que terá acontecido? Quem terá ficado com o resto?
Rapidamente todos aceitaram o que aconteceu e a vida continuou, no dia seguinte.”
Se estivéssemos no tal país a que me referi, a explicação existiria. Tinha sido uma pessoa que tinha ficado com a outra parte da luz do sol e ninguém tinha descoberto. Conseguiu fugir porque tinha informação privilegiada sobre a forma de atuar das forças policiais e, fundamentalmente, continuava a fazer a sua vida normal, sempre a queixar-se.
Era um(a) manhoso(a), conhecia toda a gente da rua dele(a) e, muito importante, procurava saber da vida toda dos outros. Para além disso, conhecia a prima do padrinho do avô da esposa do Ministro da Segurança a quem tinha oferecido um leitão na última Páscoa.
Quem o via assim a subir na vida começou a ter inveja do seu sucesso e, passou a fazer o mesmo…
O reino da manhosice virou então um reino de sucesso a nível interno. Tornou-se o reino dos que, enganando-se uns aos outros, sobreviviam a partir da atitude de ser manhoso, a qual passou a ser entendida como um valor seguro.
“- Olha o sol está cada vez menos luminoso!
- Deixem lá que é assim em todo o lado.”
Moral da estória: a máxima expressão da manhosice ficou conhecida como “chico espertismo” e, na maioria dos casos, confundiu-se com a política.

sábado, 15 de outubro de 2011

Convicções

Temos esta convicção. A responsabilidade da situação atual é toda nossa.
Quando foi necessário escolher dirigentes, eleger líderes, apoiar os mais capazes, assobiámos, a maioria, para o lado.
Sim, a maioria. Os resultados das sucessivas eleições são claros. A abstenção tem maior expressão do que aquela que os democratas esperavam.
Os destinos deste país são, assim, definidos por pessoas, iguais a cada um de nós, que representam uma minoria dos seus concidadãos.
No entanto, a maioria, que se afasta desses eleitos, continua a ignorar a necessidade de, solidariamente, fazer parte da solução. Uma solução que seja a expressão de vontades, de opções dos interessados.
Ter interesse, na moral cristã, está conotado com o desejo e com o pecado. Aquela rapariga é linda de morrer! Na língua inglesa (interest) até é sinónimo de juro. O juro está intimamente ligado ao agiotismo. E foi a inveja aos agiotas, mascarada pelo pecado que o juro representava que, no tempo do casamento de D.Manuel, nos levou a perseguir os judeus que se dirigiram para a Alemanha e para os Países Baixos (designação oficial atual da Holanda).
A história é sempre diferente mas a lei do eterno retorno, bem expressa no filme AVATAR e no ditado “cá se fazem, cá se pagam”, leva a que hoje, mais uma vez fruto das decisões dos nossos dirigentes e com apoio das minorias interessadas, o país, com oitocentos e tal anos, seja confrontado com o pagamento das dívidas aos países do centro da Europa.
Quero eu dizer que, desta vez, tocando-nos a todos, há que pensar um pouco. Refletir!
Só existimos, diz Freud, porque existe outra pessoa que repara em nós. Daí termos de arrepiar caminho. Já perdemos demasiado tempo com intrigas, inveja e medo do ridículo.
O tempo é um recurso escasso e, a maior parte das vezes, mal aproveitado. Carpe Diem.
Mas, ao menos, que o seja com sentido. O pequeno feudo, a pequena mentalidade, a falta de valores, a “chico-espertice” rápida serão triturados pela sua falta de qualidade. As conversas entre os principais dirigentes são só a repetição do que fizeram até agora. Os seus seguidores precisam de exemplos. Exemplos que tenham significado, positivos e firmes, futuros pensados e partilhados.
Felizmente, no futuro vamos ouvir falar pouco daqueles que se passearam com Ferraris e têm os seus esquemas dissimulados em nome de familiares. São exemplos efémeros que têm de se esconder porque senão ainda acabam alvo da cobiça alheia.
Urge, deixar de ser individualista quando nos convém e colectivista quando nos interessa. As pessoas são os seres vivos que amadurecem mais lentamente. Têm tempo para aprender. Não só na escola, precisa-se de aprender… sempre.

domingo, 9 de outubro de 2011

A estação

Para mim a Vida não é uma sucessão de apeadeiros de comboio ou paragens de camioneta.
Não vamos daqui acolá para dizermos que já chegámos ao fim da viagem. A viagem física só acaba quando morrermos e, mesmo assim, há quem acredite, eu incluído, em vidas para além da morte.
Após ter lido “The station”, de Robert J. Hastings, fiquei ainda mais convencido que, tal como diz Machado, poeta de língua castelhana, “se hace el camiño al andar”.
O mais importante é, ao longo da viagem, ir construindo pontes, desfrutando dos laços e sorrindo sem azedume. Sei que não é fácil porque vivemos muito perto uns dos outros e, nem sempre, nos respeitamos.
Quando me deparei com o resgate de Portugal pela TROIKA, senti que, mais uma vez, as pessoas iriam considerar tal processo como um sonho e iriam ficar impacientes até que ele acabasse.
Não conseguimos antecipar o final do processo nem temos perspetivas do caminho para lá chegar. No entanto, estamos à espera que nos aconteça menos mal do que aos outros. Nunca pior…
Como afirma Hastings “…Mais tarde ou mais cedo vamos todos perceber que não há estação ou lugar para alcançar de imediato. A verdadeira alegria da vida é a viagem.”
Por outras palavras, é preciso ter calma e desfrutar no caminho da vida. Mesmo que os sacrifícios sejam muitos e estejamos habituados a ter a vida facilitada.
Apesar do desconforto aprendamos com mais esta etapa. Sintamos o sabor dos momentos que passam.
Não queiramos queimar as etapas e preencher o caderno das milhas das viagens supersónicas. Comam mais gelados, nadem mais vezes, observem mais pores-do-sol, riam mais e chorem menos. Enfim a vida é curta e temos de a viver enquanto a possuímos.
Até porque a estação física pode chegar mais depressa do que contamos…

A Serra da Leba

A Serra da Leba
A sombra das luzes