Não há, até ao momento, outra forma, simultaneamente emocional e racional, de encarar a repartição e a dádiva. Cortella, um filósofo palestrante e teólogo brasileiro, apresenta uma espécie de ditado que nos pode ajudar a perceber esse tipo especial de relacionamento humano: “Quem sabe reparte, quem não sabe procura”.
De facto, é com humildade que o ser humano consegue chegar mais longe. Se detivermos conhecimento que mais ninguém tem, é positivo repartirmos esse conhecimento com os outros para conseguirmos todos chegar mais longe.
Tal atitude justifica-se por múltiplas razões.
Primeiro porque a nossa forma de percecionar esse conhecimento é única mas não necessariamente a melhor de todas. Há que a colocar em diálogo com o desconhecimento dos outros para, junto deles, aquilatar a sua profundidade e importância. O nosso conhecimento só ganha autêntica dimensão quando, colocado à disposição dos outros, se potencia e chega junto de mais pessoas transformando-se em conhecimentos novos.
Por outro lado, numa sociedade do conhecimento, quem tem conhecimento tem poder. Poder no sentido da autonomia que o ser humano passa a possuir a partir do momento que interioriza conhecimentos. Autonomia de decidir o seu percurso de vida, de assumir a responsabilidade pelas suas decisões e de refletir sobre a sua existência e a dos outros. Um poder que considera os outros como destinatários das nossas reflexões, as quais nos permitem conviver melhor, é um poder que serve a todos.
Finalmente, nós nunca estamos totalmente satisfeitos. Somos seres inacabados, em trânsito, à procura de explicações para tudo aquilo que nos ultrapassa a racionalização. Só tem sentido continuar a procurar se, nessa tarefa, nos ajudarmos uns aos outros a estar menos insatisfeitos connosco próprios e a racionalizarmos em conjunto.
Sem querer modelar consciências não posso deixar de concluir dizendo que, a melhor forma de nos tornarmos mais ricos e fortes é a partilha dos recursos de que dispomos. A vida de abundância de que fala a Bíblia não é um Paraíso quimérico, é, como dizia Paulo Freire, um “inédito viável”. Ou seja, algo que ainda não existe, porque ainda não chegámos a essa parte do percurso, mas possível de concretizar se o desejarmos e acreditarmos na sua potencialidade.
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