domingo, 18 de outubro de 2009

morropeixe3

Meia-noite no Aeroporto da Portela, Lisboa, para muitos ainda “a capital do império”. Era quase Inverno, estava tempo fresco e nebulado, e tinha-se comemorado o 25 de Novembro de 1975 com marchas militares e a presença dos que ganharam poder no confronto.
De facto, após o eclodir das liberdades, partindo da matriz existente, com a prática de conceitos teóricos importados e com os avanços e recuos ideológicos, muitos portugueses avançaram no sentido da reciclagem sociológica. Só que, como veremos, tal reciclagem nada teve de fácil.
Os elementos da equipa já se conheciam com excepção de Fáso, professor de Português, que tinha viajado directa e secretamente de Lovaina - A Nova, a católica, na Bélgica. Era um nortenho que tinha fugido à guerra colonial e convivia, há muito, com a qualidade de vida europeia. Magrinho, calças estranhamente curtas, bem-falante, tinha olhos azuis, sorriso malandro e um bigode, tipo alemão, farfalhudo por descuido ou em puro exercício de imagem. Vinha acompanhado de uma filha, herdada de uma ligação passada, com quem interagia com pretenso desprendimento. Foi a atracção da partida pela surpreendente e meteórica aparição.
Já o mesmo não se podia dizer do Larangeira que era, de longe, o mais descontraído após ter bebido duas garrafas de gin sem água tónica. O seu estado normal era cronicamente ébrio e permanentemente consciente. Quando não bebia entrava em conflitos com a companheira, tornando-se perigoso e grosseiro. Era escritor, ouvia com paixão as músicas de Brel, citava Kerouac e tinha quase passado à clandestinidade no 25 de Novembro de 1975. Era o titular de Ciências Naturais.
As palavras bailavam na boca sensual da Ivete, a chefe do grupo e professora primária, que namoriscava num canto com o seu mais recente companheiro de vidas e out-sider do projecto. Magríssima e muito morena, tinha uma aura que a distinguia de todos. Ela era, sem dúvida, uma mulher muito experiente e sensível. Emanava uma serenidade que não era só aparente, quando se enervava era como um vulcão, tinha sido educada com pormenores de senhora da sociedade.
Pargas era o nome de guerra do companheiro da chefe de missão. Magríssimo, inteligente e por vezes enlouquecido tinha por tarefa revitalizar a edição do jornal de S. Tomé. Tinha reportado acontecimentos marcantes da vida portuguesa da última década. Ele viu o Leão de Rio Maior fugir sem nunca mais ser visto. Sem gravador conversou com Salgueiro Maia no Carmo. Enfim, a notícia era a sua maior amante e aliada.
A actriz Prima, professora de Movimento e Drama, era a imagem da leveza. Em estado larvar, pairava sobre o que acontecia e não se perturbava com nada nem ninguém. Tinha sido educada numa família republicana de casta superior e a sua forma de estar era claramente elevada e distante. De vez em quando, qual soprano alemã, ciciava a sua opinião sem contudo levantar ondas. Assumia a sua inferioridade em relação a Diogo e venerava-o silenciosamente.
Para encontrar o homem que iria preparar o regresso do Tchi-lo-li aos grandes palcos da Europa, coisa que não acontecia desde que o Barão de Água Izé tinha alugado a Ópera de Paris no ido século dezanove, havia que procurar na zona das free-shops. Lá estava o Diogo, companheiro de Prima, que tinha sido figurante no filme “Alcácer Quibir” e tinha exigido, em pleno deserto, água mineral engarrafada para matar a sede. Um aventureiro experiente e com sentido de oportunidade procurava abastecer-se sem taxas.
Mais ao longe, na esquina do café, sentava-se Flor com a filha no colo e um livro na mão. Cabia-lhe lidar com a Psicologia no curso e não só. Tinha medo de voar e tomara dois Valium. Lia para não se deixar adormecer enquanto embalava a Sofia. Já tinha tomado cinco cafés e cabeceava com sono. A sua hora era outra, mais tardia e agitada. Agora estava em fase de introspecção.
O professor de Matemática, Alido, vinha do Porto e tinha sotaque de Coimbra. Moreno, meio indiano, meio cigano, era o menos experiente da expedição e também o mais novo. Acompanhado pela mulher, bastante jovem, e pela filha Sara ainda pequena, apostava o seu futuro. Tinha tido, mais uma vez, a ajuda que sempre o protegera de males maiores. São Tomé representava a sua libertação de um meio familiar mesquinho em que a relação com Rafaela não ganhara espaço para ser posta à prova. Nunca tinha estado em África e não temia o desconhecido. Tudo seria preferível a continuar em Portugal. Era preciso sair…
Alheio aos dramas, representando a ONG, Louis viajava com o grupo. Cabia-lhe ajudar à instalação e clarificação das condições de trabalho. Tinha a estratégia bem delineada para que a missão não falhasse. A organização a que pertencia confiou-lhe as decisões sobre as nossas vidas. Os dados estavam lançados.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

morropeixe 2.

Como lhe pareciam distantes esses momentos passados com Joan, a jovem norte americana, que vinha a acompanhar os avós que já quase não falavam português. Ficaram todos contentes quando a viram conversar com um “nativo” de bom aspecto.
Entabulou conversa com a jovem loura e atraente a propósito do tamanho da Torre de Belém. De facto, a torre, apesar de representada à escala, parecia pequena de mais. Palavra puxa palavra e já pareciam íntimos. Perguntou-lhe a cidade de onde vinha e ela respondeu-lhe: - Boston, no Massachussets.
Alido cantou de imediato: “Feel I’m going back to Massachussets…”.
Estava estabelecido o contacto afectivo através do trautear trinado daquela canção dos Bee Gees.
Alido consumia o “Mundo da Canção”, decorava as letras das canções estrangeiras e cantava-as com muito profissionalismo e sem ajuda de instrumentos.
Por entre a vegetação e as miniaturas Alido sentiu o bom que era beijar uma mulher sem qualquer compromisso e que, tinha a certeza, nunca mais veria.
Entretanto, para conseguir estes avanços, Alido faltava às aulas de Matemática na Secundária D.Duarte, perto da Quinta das Lágrimas, quase pondo em causa não só, o objectivo da entrada na universidade nesse ano, mas também o “salto” para o Porto que foi determinante na independência de Alido.
No entanto, o que transformou radicalmente a sua vida foi a Revolução dos Cravos.
Com dezoito anos e a carreira promissora de atleta semi-profissional o jovem Alido sentia-se bem. Estava fora de casa da família, tinha rendimentos, não declarados, superiores aos de seu pai e era estudante universitário.
Só que isso não lhe bastava, ele ansiava pelo encontro com novas vias de conhecimento e pela descoberta de si próprio. Daí até ao consumo de indutores externos de realidade alternativa foi um pequeno passo.
Bastou que, numa noite, alguns dos elementos de um grupo musical de garagem decidissem experimentar, não na produção musical mas no crescimento pessoal, os efeitos de um cigarro de “seruma”. Sem qualquer mistura, apenas erva de primeira qualidade que tinha acabado de chegar no meio das bagagens de um retornado moçambicano.
Alido experimentou, pela primeira vez, que o seu corpo tinha outras sensibilidades. Chamava-se a isso um “baptismo” com implicações físicas distintas do outro que o marcara religiosamente.
A transformação aconteceu. O ser pensante, quando reflecte, é um verdadeiro motor de desenvolvimento da vida. Muito se modificou naquela cabeça e passaram a ser diferentes as prioridades.
Num ser o crescimento psicológico faz-se por saltos e rupturas com o estabelecido. Para Alido o corpo, o desporto/paixão, a família, a prática religiosa e o curso universitário passaram a ser objecto de novas percepções.
O atleta abandonou o crivo profissional e a forma física passou para segundo plano. A família foi colocada numa redoma e mantida à distância do que ia acontecendo com o corpo. A religião tornou-se dispensável e dogmática face ao presente. O futuro afigurava-se incerto e longínquo.
E o que é que ficou?
Ficou o ser humanista que tinha sido construído até aí.
Ficou o homem que queria viver e experimentar-se enquanto tinha tempo. Já…Agora…
Bom, o mundo não desabou, bem pelo contrário. Ficou mais perto do céu…
Foram dois anos de grande resistência física aos atentados químicos entretanto ocorridos. As “viagens” tinham sempre volta, à custa da atitude, e as “ressacas” iam moendo mas não matando os hábitos, instalados anteriormente.
O amor, a paixão e o sexo apareceram, sempre com esta prioridade, e fazem parte integrante da experiência de vida de Alido. Para ele foram vivências mais que marcantes e enriquecedoras.
Exceptuando alguns carinhos e beijos com a norte-americana, neta de emigrantes de Boston, no Portugal dos Pequenitos em Coimbra, o amor resumia-se a namoros de praia que, inevitavelmente, morriam na areia.
Por isso, a passagem de ano 1974/75, foi um momento de viragem na história do amor para Alido.
Linda era uma estudante na Escola Comercial e lutava para terminar uma relação antiga com alguém que a tinha iniciado no amor. Só que esse ser fazia-lhe mal. Tentava libertar-se quando conheceu Alido e seduziu-o. Alido gostava dela e dava-lhe o carinho que a preenchia. Mas, o outro não a deixava descansar.
A passagem de ano foi o momento dessa tentativa de mudança. Linda envolveu-se afectivamente com Alido. Conheceram-se um ao outro. Foi uma boa noite…
Alido acreditou que o amor estava ali. Puro engano…
Para Linda tinha, de facto, sido uma “facada” na relação que a consumia.
O lado positivo de Alido, que nunca se perdeu, recuperou e partiu à conquista de novos desafios.
Surgiu Maité, nome de mulher sempre difícil de pronunciar e de compreender. O mesmo cenário afectivo. A ruptura para descomprimir. Ora bolas!
E a sequência de amores não parava. Rafaela aparece e o vulcão Alido entra em erupção. Convém referir que Rafaela era uma jovem de dezasseis anos e corpo de muitos mais.
A relação avançou, aos olhos de então, depressa de mais. E isso redundou na transformação mais radical alguma vez operada na vida de Alido.
Tudo foi posto em causa. Foi obrigado, pelas circunstâncias, a fugir com Rafaela. O pai desta queria, mesmo, tirar desforço de Alido.
O medo instalou-se e as responsabilidades também.
Casaram, pelo civil, para Alido evitar males maiores com a justiça.
Foram dois anos de verdadeiro corrupio com o regresso à Universidade e a conclusão do Bacharelato.
Pelo meio ficaram dois momentos de importância capital na readaptação de Alido.
O primeiro foi um caso de violência física e tiros.
Rafaela terminava o curso secundário e Alido trabalhava na estiva no porto de Matosinhos. Os tempos eram de crise. O dinheiro não abundava e Alido pegava às oito e largava às cinco. Rolava fardos de algodão num armazém de conferência naval e tinha uma hora para almoçar.
Um dia, as tensões políticas conduziram Alido, na sua hora de almoço, a um conflito entre estudantes na escola de Rafaela. Houve empurrões, murros e polícia. A polícia não conseguiu resolver a contenda e disparou tiros para o ar…
Um deles atingiu Alido na perna direita e obrigou-o a ir de táxi para o Hospital. Seguiram-se seis meses de recuperação na cama e, ainda por cima, em casa do pai de Rafaela.
O segundo momento, o nascimento de Sara em Agosto de 1977, foi marcado decisivamente pelo primeiro, ocorrido em Maio do mesmo ano.
Alido assumiu por inteiro a sua condição de pai e educador. Abriu-se a uma nova experiência. Por isso e pela sua própria sanidade mental orientou-se para o projecto em São Tomé.
Estava reaproveitado…

A matriz

De acordo com um dos maiores economistas portugueses vivos, Ernâni Lopes, ministro do Governo de Mário Soares que preparou a entrada na então CEE, “…todos os momentos decisivos, de crise e de afirmação da existência de Portugal, mostram o peso concreto (político, económico e cultural) da utilização desta dinâmica geopolítica da contraposição entre o marítimo e o continental em que, do ponto de vista analítico, encontramos a chave da compreensão do fenómeno português: a única estrutura política, saída da Reconquista Cristã na Península Ibérica, que mantém a sua independência política face ao poder aglutinador de Castela.”

Se o país actual, como afirma António Barreto na sua série televisiva, nada tem a ver com o país de há 50 anos atrás, essa transformação foi no mínimo, contraditória e pontuada por mal-entendidos, sobretudo, no tocante à construção de uma matriz identitária.
A matriz identitária de uma sociedade, ou de uma organização, é desenhada pelos diversos posicionadores a que recorrem os povos, ou as pessoas, para se orientar e progredir.
Se analisarmos os factos no tempo, a opção da abertura de Portugal ao exterior, no início dos anos 60, vingou entre as elites económicas mas, sempre foi considerada perigosa pelos que nela viam o fim da nacionalidade. De facto, a matriz identitária do Estado Novo nunca considerou a comunicação com a Europa como traço estratégico.
Salazar recusou-se sempre a apanhar o Sud-Express na estação de Santa Comba Dão. Foram décadas de autarcia e obscurantismo na vida de um povo a quem tinha ficado pouco a que se agarrar. Sem o fado, sem o futebol e sem Fátima, a matriz não teria resultado.
A matriz identitária, definida pelo financista beirão, sobreviveu em Portugal nos últimos cinquenta anos porque nenhum movimento ideológico ou partidário conseguiu criar outra para se constituir como alternativa.
O 25 de Abril de 74 resultou da erosão da matriz salazarenta mas não a substituiu nem extinguiu, tentou escondê-la sem criar alternativas credíveis.
O 25 de Novembro de 75 foi um evitar de guerra civil a que se seguiu, devido à ascensão e manutenção de Ramalho Eanes, um fogacho identitário que desembocou no PRD, de Manuel Martinho, que morreu antes de se constituir como alternativa.
Mário Soares tentou pegar nas pontas da matriz mas enredou-se na necessidade de responder às exigências do FMI e da dívida pública, colocando-nos na CEE. Não houve tempo, nem arte para mais nada.
Cavaco Silva, o homem que não lia jornais portugueses mas era aceite lá fora. Sendo, também ele, resultado da matriz supracitada, quase que reunia as condições para redesenhar a identidade portuguesa. Houve dinheiro, estabilidade governativa e carisma pessoal. No entanto, faltou massa crítica aderente. Cavaco não conseguiu ganhar os intelectuais, com excepção, talvez, de Agustina Bessa Luís, Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura. Não foi suficiente e, sobretudo, o tempo passava sem se pegar na essência da matriz identitária portuguesa: o estar no mundo.
Virados sobre si próprios, os portugueses demoram tempo a aceitar que estão no mundo, para o mal e para o bem. Os milhões de emigrantes e, mais recentemente, o mediático José Mourinho, trouxeram ao de cima a capacidade de sabermos estar no mundo.
Urge apostar numa matriz que nos permita sem atavismos, outra vez, estar no mundo.
É que a matriz é muito mais que um ou alguns traços avulsos. É, fundamentalmente, um modelo mental que cada um de nós perceba e utilize no dia a dia para sermos felizes.

sábado, 10 de outubro de 2009

O meu desejo

O meu desejo, neste momento, é contribuir para a divulgação de uma terra de que gosto e à qual ainda não voltei desde 1983. Já se perfilaram oportunidades mas, não resultaram. No entanto, a chama continua acesa. Por isso, decidi criar este blog e publicar excertos de uma publicação mais ampla que pretendo ir divulgando.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

morropeixe

Finalmente conseguimos!!
Esta frase ilustra a superação de uma fase das vidas de pessoas normais e simples. Quando se pensa no que já passou constata-se que se está “noutra”. O ditado popular “Quem espera sempre alcança” só tem sentido se for conjugado com o sucesso. E, às vezes, já é tarde mas, “mais vale tarde que nunca”. Enfim, eles tinham conseguido aquilo que já não valorizavam como no início.
O projecto arrastou-se tanto tempo, os avanços e recuos sucediam-se com tal ritmo, que se correu o risco de perder muito mais a oportunidade individual do que a colectiva.
Nesses dias, a velocidade dos meios de comunicação não os penetrava com a pressão do “acontece ontem”. O tempo ia passando e moendo as suas vontades. Foram longos meses de espera, com a burocracia a dar forma à falta de interesse em aceitar a diferença.
O projecto era objectivo e exequível. Uma ONG (Organização não Governamental) portuguesa, com contactos preferenciais na recém (12 de Julho de 1975) designada República Democrática de São Tomé e Príncipe, comprometeu-se a criar uma espécie de Escola do Magistério Primário na cidade-capital São Tomé.
No entanto, situação normal na altura, a ONG não dispunha de recursos próprios necessários para suportar os encargos financeiros da operação. Solicitou ajuda ao Governo português, dirigiu as negociações com o país de acolhimento e escolheu a equipa de trabalho: uma professora primária experiente, uma psicóloga, uma actriz com formação superior, um professor de Português, um professor de Ciências Naturais e um professor de Matemática.
Ao longo do tempo de espera realizaram-se várias reuniões preparatórias de modo a que a equipa estivesse preparada e coesa na chegada ao terreno.
O Gabinete para a Cooperação do Ministério dos Negócios Estrangeiros (na altura o Ministro era Medeiros Ferreira) reconhecia o carácter inovador do projecto mas, como se sentia ultrapassado diplomaticamente, hesitava na sua aceitação política e financeira, adiando, sistematicamente, a autorização de partida.
O II Governo Constitucional vacilava, cioso da exclusividade dos contactos com as ex-colónias, na senda da coligação PS-CDS, travando uma iniciativa que se revelou única, pioneira e não repetida, que se saiba, no relacionamento cultural com a África de expressão portuguesa.
Mas, até este governo não durou o tempo necessário para decidir sobre o caso. Ramalho Eanes exonerou o “governo anti-natural” PS/CDS em Julho de 1978, empossou Nobre da Costa como Primeiro-Ministro que, por sua vez, foi substituído em Outubro com a indigitação de Mota Pinto.
Os tempos eram de “consolidação democrática” supervisionada pelo Presidente da República e o MFA/Conselho da Revolução ia perdendo, paulatinamente, o poder derivado do 25 de Abril de 74.

A Serra da Leba

A Serra da Leba
A sombra das luzes