Meia-noite no Aeroporto da Portela, Lisboa, para muitos ainda “a capital do império”. Era quase Inverno, estava tempo fresco e nebulado, e tinha-se comemorado o 25 de Novembro de 1975 com marchas militares e a presença dos que ganharam poder no confronto.
De facto, após o eclodir das liberdades, partindo da matriz existente, com a prática de conceitos teóricos importados e com os avanços e recuos ideológicos, muitos portugueses avançaram no sentido da reciclagem sociológica. Só que, como veremos, tal reciclagem nada teve de fácil.
Os elementos da equipa já se conheciam com excepção de Fáso, professor de Português, que tinha viajado directa e secretamente de Lovaina - A Nova, a católica, na Bélgica. Era um nortenho que tinha fugido à guerra colonial e convivia, há muito, com a qualidade de vida europeia. Magrinho, calças estranhamente curtas, bem-falante, tinha olhos azuis, sorriso malandro e um bigode, tipo alemão, farfalhudo por descuido ou em puro exercício de imagem. Vinha acompanhado de uma filha, herdada de uma ligação passada, com quem interagia com pretenso desprendimento. Foi a atracção da partida pela surpreendente e meteórica aparição.
Já o mesmo não se podia dizer do Larangeira que era, de longe, o mais descontraído após ter bebido duas garrafas de gin sem água tónica. O seu estado normal era cronicamente ébrio e permanentemente consciente. Quando não bebia entrava em conflitos com a companheira, tornando-se perigoso e grosseiro. Era escritor, ouvia com paixão as músicas de Brel, citava Kerouac e tinha quase passado à clandestinidade no 25 de Novembro de 1975. Era o titular de Ciências Naturais.
As palavras bailavam na boca sensual da Ivete, a chefe do grupo e professora primária, que namoriscava num canto com o seu mais recente companheiro de vidas e out-sider do projecto. Magríssima e muito morena, tinha uma aura que a distinguia de todos. Ela era, sem dúvida, uma mulher muito experiente e sensível. Emanava uma serenidade que não era só aparente, quando se enervava era como um vulcão, tinha sido educada com pormenores de senhora da sociedade.
Pargas era o nome de guerra do companheiro da chefe de missão. Magríssimo, inteligente e por vezes enlouquecido tinha por tarefa revitalizar a edição do jornal de S. Tomé. Tinha reportado acontecimentos marcantes da vida portuguesa da última década. Ele viu o Leão de Rio Maior fugir sem nunca mais ser visto. Sem gravador conversou com Salgueiro Maia no Carmo. Enfim, a notícia era a sua maior amante e aliada.
A actriz Prima, professora de Movimento e Drama, era a imagem da leveza. Em estado larvar, pairava sobre o que acontecia e não se perturbava com nada nem ninguém. Tinha sido educada numa família republicana de casta superior e a sua forma de estar era claramente elevada e distante. De vez em quando, qual soprano alemã, ciciava a sua opinião sem contudo levantar ondas. Assumia a sua inferioridade em relação a Diogo e venerava-o silenciosamente.
Para encontrar o homem que iria preparar o regresso do Tchi-lo-li aos grandes palcos da Europa, coisa que não acontecia desde que o Barão de Água Izé tinha alugado a Ópera de Paris no ido século dezanove, havia que procurar na zona das free-shops. Lá estava o Diogo, companheiro de Prima, que tinha sido figurante no filme “Alcácer Quibir” e tinha exigido, em pleno deserto, água mineral engarrafada para matar a sede. Um aventureiro experiente e com sentido de oportunidade procurava abastecer-se sem taxas.
Mais ao longe, na esquina do café, sentava-se Flor com a filha no colo e um livro na mão. Cabia-lhe lidar com a Psicologia no curso e não só. Tinha medo de voar e tomara dois Valium. Lia para não se deixar adormecer enquanto embalava a Sofia. Já tinha tomado cinco cafés e cabeceava com sono. A sua hora era outra, mais tardia e agitada. Agora estava em fase de introspecção.
O professor de Matemática, Alido, vinha do Porto e tinha sotaque de Coimbra. Moreno, meio indiano, meio cigano, era o menos experiente da expedição e também o mais novo. Acompanhado pela mulher, bastante jovem, e pela filha Sara ainda pequena, apostava o seu futuro. Tinha tido, mais uma vez, a ajuda que sempre o protegera de males maiores. São Tomé representava a sua libertação de um meio familiar mesquinho em que a relação com Rafaela não ganhara espaço para ser posta à prova. Nunca tinha estado em África e não temia o desconhecido. Tudo seria preferível a continuar em Portugal. Era preciso sair…
Alheio aos dramas, representando a ONG, Louis viajava com o grupo. Cabia-lhe ajudar à instalação e clarificação das condições de trabalho. Tinha a estratégia bem delineada para que a missão não falhasse. A organização a que pertencia confiou-lhe as decisões sobre as nossas vidas. Os dados estavam lançados.
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