O avião partiu, sem atrasos, em direcção a Sul, às duas horas do dia vinte e seis. Para Alido, Rafaela e Sara era o baptismo de voo.
O barulho dos motores em potência máxima e o arranque que se lhe seguiu foram surpresas para principiantes. A tensão foi grande mas, mais uma vez, tudo iria acabar bem.
Quando o avião estabilizou já as luzes da “Capital do Império” tinham ficado para trás e as hospedeiras colocavam a comida de plástico a aquecer.
Em Turística, uma regra de ouro da aviação aproximou a cozinha dos que, em função da bolsa, demonstram mais apetite - cheira sempre mal quando se aquece a comida. Uma explicação passará pelo facto de o ar condicionado não se dar bem com os cheiros daquele sabor a carne ou peixe com cenouras estufadas.
São pelo menos duas horas a servir, recolher e arrumar os tabuleiros. Toma-se café e bebem-se digestivos na secreta esperança de que não sejam os últimos. Viajar calmamente de avião implica a ajuda de indutores de tranquilidade e a ingestão de pequenas quantidades de álcool produz rápidos efeitos vasodilatadores devido à altitude.
A vida fervilha no interior da cabina e tenta-se não desesperar na fila da toillete. Quando se consegue entrar no reduzido espaço a sensação é de claustrofobia aguda e, não fossem as necessidades por controlar, sair tornar-se-ia uma prioridade.
O regresso ao lugar processa-se com lentidão até ao preciso momento em que o comandante, com aquela voz roufenha e distante, informar que a turbulência ia chegar e que se deviam apertar os cintos.
A primeira vez que se sente um “poço de ar” teme-se que o avião caia ali mesmo. São segundos em que a sensação de vazio se apodera dos sentidos e cada um se tenta agarrar a si próprio antes do pânico.
No Golfo da Guiné estas situações são normais pelo que a hora da refeição já prevê as subsequentes quedas livres do avião.
A TAP, na altura a linha aérea oficial portuguesa, ainda operava com aviões Boeing 707 e o voo Lisboa – São Tomé não era regular. Esta era uma experiência para testar as possibilidades de efectuar a viagem sem escala e utilizando aviões com maior capacidade. Os voos regulares da T.A.P. tinham escala em Luanda, partindo para São Tomé metade dos passageiros, de cada vez, num Boeing 737 da T.A.A.G., transportadora angolana.
Quase ninguém, talvez só mesmo os luandinos, gostava de efectuar escala no Aeroporto 4 de Fevereiro em Luanda.
Não funcionava o ar condicionado e era um martírio esperar por transporte sem qualquer corrente de ar num clima tropical e em edifício com vidros duplos nas janelas. Muitas vezes tentava-se dormir com sacos plásticos nos pés e blusas sobre a cara por causa dos mosquitos.
Ainda o estômago se recompunha do poço de ar e o comandante fustigava de novo os passageiros com aquela voz que parecia vir de longe:
- Senhores passageiros, mantenham os cintos apertados pois vamos iniciar a descida para São Tomé.
O avião estava a dez quilómetros de altitude em cima do Oceano Atlântico sobre o Equador. O aeroporto de São Tomé não tinha meios sofisticados de comunicação, só um radiofarol.
O piloto apercebeu-se da ilha praticamente em cima e iniciou uma descida vertiginosa sem respeito por quaisquer patamares de descida. Os ouvidos contraíram-se, latejaram, entupiram e deixaram de funcionar.
Foram vinte minutos de solidão e de voo picado em direcção ao mar. Depois, a pista estendeu-se, durante pouco mais que um quilómetro, da praia até um morro estrategicamente colocado no final. O 707 apontou e tocou no chão a dois terços do final do percurso. Inversão de reactores, travões, flaps…tudo. O avião empinou-se e parecia que se ia esborrachar contra o morro.
Fé, perícia e muita sorte até que o piloto parou o avião. Os passageiros, violentados e zonzos, bateram palmas ao piloto e a si próprios.
O comandante guiou o avião para a zona de desembarque, deu ordem de abertura das portas, parou os motores e desligou o ar condicionado. O sinal dos cintos desapareceu e o calor das sete horas locais invadiu a cabina.
As roupas europeias começaram a pesar nas costas e nas coxas. O frio e a névoa tinham ficado definitivamente para trás. Pegaram-se as bagagens de mão e os passageiros alinharam-se para a saída.
O contacto com a humidade foi brutal. Encher o peito de ar era equivalente a uma engasgadela, tal a concentração de vapor de água. O nariz entupia-se com as gotículas que nele se formavam. Era preciso respirar mais devagar com aquela pressão.
O Sol era maiúsculo, forte e quente àquela hora da manhã e, pior que isso, o suor encardiu a comitiva.
A sala de passageiros era pequena e também lá não existia ar condicionado. Duas ventoinhas chinesas funcionavam a toda a velocidade difundindo o calor.
Foram precisos longos minutos para abrir e vistoriar bagagens, controlar vistos e passaportes.
Para Alido foi um momento, mais um, de paragem no percurso que tinha iniciado há muito.
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