domingo, 7 de fevereiro de 2010

morropeixe4

Meia-noite no Aeroporto da Portela, Lisboa, para muitos ainda “a capital do império”.
Estava tempo fresco e nebulado, era quase Inverno e tinha-se comemorado o 25 de Novembro de 1975 com marchas militares e a presença dos que ganharam poder no confronto.
Os elementos da equipa já se conheciam com excepção de Fáso, professor de Português, que tinha viajado directa e secretamente de Lovaina - A Nova, a católica, na Bélgica.
Era um nortenho que tinha fugido à guerra colonial e convivia, há muito, com a qualidade de vida europeia. Magrinho, calças estranhamente curtas, bem-falante, tinha olhos azuis, sorriso malandro e um bigode, tipo alemão, farfalhudo por descuido ou em puro exercício de imagem.
Vinha acompanhado de uma filha, herdada de uma ligação passada, com quem interagia com pretenso desprendimento. Foi a atracção da partida pela surpreendente e meteórica aparição.
Já o mesmo não se podia dizer do Larangeira que era, de longe, o mais descontraído após ter bebido duas garrafas de gin sem água tónica.
O seu estado normal era cronicamente ébrio e permanentemente consciente. Quando não bebia entrava em conflitos com a companheira, tornando-se perigoso e grosseiro.
Era escritor, ouvia com paixão as músicas de Brel, citava Kerouac e tinha quase passado à clandestinidade no 25 de Novembro de 1975. Era o titular de Ciências Naturais.
As palavras bailavam na boca sensual da Ivete, a chefe do grupo e professora primária, que namoriscava num canto com o seu mais recente companheiro de vidas e out-sider do projecto.
Magríssima e muito morena, tinha uma aura que a distinguia de todos. Ela era, sem dúvida, uma mulher muito experiente e sensível. Emanava uma serenidade que não era só aparente, quando se enervava era como um vulcão, tinha sido educada com pormenores de senhora da sociedade.
Pargas era o nome de guerra do companheiro da chefe de missão. Magríssimo, inteligente e por vezes enlouquecido tinha por tarefa revitalizar a edição do jornal de S. Tomé.
Tinha reportado acontecimentos marcantes da vida portuguesa da última década. Ele viu o Leão de Rio Maior fugir sem nunca mais ser visto. Sem gravador conversou com Salgueiro Maia no Carmo.
Enfim, a notícia era a sua maior amante e aliada.
A actriz Prima, professora de Movimento e Drama, era a imagem da leveza. Em estado larvar, pairava sobre o que acontecia e não se perturbava com nada nem ninguém.
Tinha sido educada numa família republicana de casta superior e a sua forma de estar era claramente elevada e distante. De vez em quando, qual soprano alemã, ciciava a sua opinião sem contudo levantar ondas.
Assumia a sua inferioridade em relação a Diogo e venerava-o silenciosamente.
Para encontrar o homem que iria preparar o regresso do Tchi-lo-li aos grandes palcos da Europa, coisa que não acontecia desde que o Barão de Água Izé tinha alugado a Ópera de Paris no ido século dezanove, havia que procurar na zona das free-shops.
Lá estava o Diogo, companheiro de Prima, que tinha sido figurante no filme “Alcácer Quibir” e tinha exigido, em pleno deserto, água mineral engarrafada para matar a sede.
Um aventureiro experiente e com sentido de oportunidade procurava abastecer-se sem taxas.
Mais ao longe, na esquina do café, sentava-se Flor com a filha no colo e um livro na mão.
Cabia-lhe lidar com a Psicologia no curso e não só. Tinha medo de voar e tomara dois Valium 5.
Já tinha tomado cinco cafés e cabeceava com sono. Lia para não se deixar adormecer enquanto embalava a Sofia. A sua hora era outra, mais tardia e agitada. Agora estava em fase de introspecção.
O professor de Matemática, Alido, vinha do Porto e tinha sotaque de Coimbra. Moreno, meio indiano, meio cigano, era o menos experiente da expedição e também o mais novo.
Acompanhado pela mulher, bastante jovem, e pela filha Sara ainda pequena, apostava o seu futuro. Tinha tido, mais uma vez, a ajuda que sempre o protegera de males maiores.
São Tomé representava a sua libertação de um meio familiar mesquinho em que a relação com Rafaela não ganhara espaço para ser posta à prova.
Nunca tinha estado em África e não temia o desconhecido. Tudo seria preferível a continuar em Portugal. Era preciso sair…
Alheio aos dramas, representando a ONG responsável pelo projecto, Louis viajava com o grupo.
Cabia-lhe ajudar à instalação e clarificação das condições de trabalho. Tinha a estratégia bem delineada para que a missão não falhasse. A organização a que pertencia confiou-lhe as decisões sobre as nossas vidas.
Os dados estavam lançados.

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