morropeixe 2.
Como lhe pareciam distantes esses momentos passados com Joan, a jovem norte americana, que vinha a acompanhar os avós que já quase não falavam português. Ficaram todos contentes quando a viram conversar com um “nativo” de bom aspecto.
Entabulou conversa com a jovem loura e atraente a propósito do tamanho da Torre de Belém. De facto, a torre, apesar de representada à escala, parecia pequena de mais. Palavra puxa palavra e já pareciam íntimos. Perguntou-lhe a cidade de onde vinha e ela respondeu-lhe: - Boston, no Massachussets.
Alido cantou de imediato: “Feel I’m going back to Massachussets…”.
Estava estabelecido o contacto afectivo através do trautear trinado daquela canção dos Bee Gees.
Alido consumia o “Mundo da Canção”, decorava as letras das canções estrangeiras e cantava-as com muito profissionalismo e sem ajuda de instrumentos.
Por entre a vegetação e as miniaturas Alido sentiu o bom que era beijar uma mulher sem qualquer compromisso e que, tinha a certeza, nunca mais veria.
Entretanto, para conseguir estes avanços, Alido faltava às aulas de Matemática na Secundária D.Duarte, perto da Quinta das Lágrimas, quase pondo em causa não só, o objectivo da entrada na universidade nesse ano, mas também o “salto” para o Porto que foi determinante na independência de Alido.
No entanto, o que transformou radicalmente a sua vida foi a Revolução dos Cravos.
Com dezoito anos e a carreira promissora de atleta semi-profissional o jovem Alido sentia-se bem. Estava fora de casa da família, tinha rendimentos, não declarados, superiores aos de seu pai e era estudante universitário.
Só que isso não lhe bastava, ele ansiava pelo encontro com novas vias de conhecimento e pela descoberta de si próprio. Daí até ao consumo de indutores externos de realidade alternativa foi um pequeno passo.
Bastou que, numa noite, alguns dos elementos de um grupo musical de garagem decidissem experimentar, não na produção musical mas no crescimento pessoal, os efeitos de um cigarro de “seruma”. Sem qualquer mistura, apenas erva de primeira qualidade que tinha acabado de chegar no meio das bagagens de um retornado moçambicano.
Alido experimentou, pela primeira vez, que o seu corpo tinha outras sensibilidades. Chamava-se a isso um “baptismo” com implicações físicas distintas do outro que o marcara religiosamente.
A transformação aconteceu. O ser pensante, quando reflecte, é um verdadeiro motor de desenvolvimento da vida. Muito se modificou naquela cabeça e passaram a ser diferentes as prioridades.
Num ser o crescimento psicológico faz-se por saltos e rupturas com o estabelecido. Para Alido o corpo, o desporto/paixão, a família, a prática religiosa e o curso universitário passaram a ser objecto de novas percepções.
O atleta abandonou o crivo profissional e a forma física passou para segundo plano. A família foi colocada numa redoma e mantida à distância do que ia acontecendo com o corpo. A religião tornou-se dispensável e dogmática face ao presente. O futuro afigurava-se incerto e longínquo.
E o que é que ficou?
Ficou o ser humanista que tinha sido construído até aí.
Ficou o homem que queria viver e experimentar-se enquanto tinha tempo. Já…Agora…
Bom, o mundo não desabou, bem pelo contrário. Ficou mais perto do céu…
Foram dois anos de grande resistência física aos atentados químicos entretanto ocorridos. As “viagens” tinham sempre volta, à custa da atitude, e as “ressacas” iam moendo mas não matando os hábitos, instalados anteriormente.
O amor, a paixão e o sexo apareceram, sempre com esta prioridade, e fazem parte integrante da experiência de vida de Alido. Para ele foram vivências mais que marcantes e enriquecedoras.
Exceptuando alguns carinhos e beijos com a norte-americana, neta de emigrantes de Boston, no Portugal dos Pequenitos em Coimbra, o amor resumia-se a namoros de praia que, inevitavelmente, morriam na areia.
Por isso, a passagem de ano 1974/75, foi um momento de viragem na história do amor para Alido.
Linda era uma estudante na Escola Comercial e lutava para terminar uma relação antiga com alguém que a tinha iniciado no amor. Só que esse ser fazia-lhe mal. Tentava libertar-se quando conheceu Alido e seduziu-o. Alido gostava dela e dava-lhe o carinho que a preenchia. Mas, o outro não a deixava descansar.
A passagem de ano foi o momento dessa tentativa de mudança. Linda envolveu-se afectivamente com Alido. Conheceram-se um ao outro. Foi uma boa noite…
Alido acreditou que o amor estava ali. Puro engano…
Para Linda tinha, de facto, sido uma “facada” na relação que a consumia.
O lado positivo de Alido, que nunca se perdeu, recuperou e partiu à conquista de novos desafios.
Surgiu Maité, nome de mulher sempre difícil de pronunciar e de compreender. O mesmo cenário afectivo. A ruptura para descomprimir. Ora bolas!
E a sequência de amores não parava. Rafaela aparece e o vulcão Alido entra em erupção. Convém referir que Rafaela era uma jovem de dezasseis anos e corpo de muitos mais.
A relação avançou, aos olhos de então, depressa de mais. E isso redundou na transformação mais radical alguma vez operada na vida de Alido.
Tudo foi posto em causa. Foi obrigado, pelas circunstâncias, a fugir com Rafaela. O pai desta queria, mesmo, tirar desforço de Alido.
O medo instalou-se e as responsabilidades também.
Casaram, pelo civil, para Alido evitar males maiores com a justiça.
Foram dois anos de verdadeiro corrupio com o regresso à Universidade e a conclusão do Bacharelato.
Pelo meio ficaram dois momentos de importância capital na readaptação de Alido.
O primeiro foi um caso de violência física e tiros.
Rafaela terminava o curso secundário e Alido trabalhava na estiva no porto de Matosinhos. Os tempos eram de crise. O dinheiro não abundava e Alido pegava às oito e largava às cinco. Rolava fardos de algodão num armazém de conferência naval e tinha uma hora para almoçar.
Um dia, as tensões políticas conduziram Alido, na sua hora de almoço, a um conflito entre estudantes na escola de Rafaela. Houve empurrões, murros e polícia. A polícia não conseguiu resolver a contenda e disparou tiros para o ar…
Um deles atingiu Alido na perna direita e obrigou-o a ir de táxi para o Hospital. Seguiram-se seis meses de recuperação na cama e, ainda por cima, em casa do pai de Rafaela.
O segundo momento, o nascimento de Sara em Agosto de 1977, foi marcado decisivamente pelo primeiro, ocorrido em Maio do mesmo ano.
Alido assumiu por inteiro a sua condição de pai e educador. Abriu-se a uma nova experiência. Por isso e pela sua própria sanidade mental orientou-se para o projecto em São Tomé.
Estava reaproveitado…
Sem comentários:
Enviar um comentário