sábado, 15 de outubro de 2011

Convicções

Temos esta convicção. A responsabilidade da situação atual é toda nossa.
Quando foi necessário escolher dirigentes, eleger líderes, apoiar os mais capazes, assobiámos, a maioria, para o lado.
Sim, a maioria. Os resultados das sucessivas eleições são claros. A abstenção tem maior expressão do que aquela que os democratas esperavam.
Os destinos deste país são, assim, definidos por pessoas, iguais a cada um de nós, que representam uma minoria dos seus concidadãos.
No entanto, a maioria, que se afasta desses eleitos, continua a ignorar a necessidade de, solidariamente, fazer parte da solução. Uma solução que seja a expressão de vontades, de opções dos interessados.
Ter interesse, na moral cristã, está conotado com o desejo e com o pecado. Aquela rapariga é linda de morrer! Na língua inglesa (interest) até é sinónimo de juro. O juro está intimamente ligado ao agiotismo. E foi a inveja aos agiotas, mascarada pelo pecado que o juro representava que, no tempo do casamento de D.Manuel, nos levou a perseguir os judeus que se dirigiram para a Alemanha e para os Países Baixos (designação oficial atual da Holanda).
A história é sempre diferente mas a lei do eterno retorno, bem expressa no filme AVATAR e no ditado “cá se fazem, cá se pagam”, leva a que hoje, mais uma vez fruto das decisões dos nossos dirigentes e com apoio das minorias interessadas, o país, com oitocentos e tal anos, seja confrontado com o pagamento das dívidas aos países do centro da Europa.
Quero eu dizer que, desta vez, tocando-nos a todos, há que pensar um pouco. Refletir!
Só existimos, diz Freud, porque existe outra pessoa que repara em nós. Daí termos de arrepiar caminho. Já perdemos demasiado tempo com intrigas, inveja e medo do ridículo.
O tempo é um recurso escasso e, a maior parte das vezes, mal aproveitado. Carpe Diem.
Mas, ao menos, que o seja com sentido. O pequeno feudo, a pequena mentalidade, a falta de valores, a “chico-espertice” rápida serão triturados pela sua falta de qualidade. As conversas entre os principais dirigentes são só a repetição do que fizeram até agora. Os seus seguidores precisam de exemplos. Exemplos que tenham significado, positivos e firmes, futuros pensados e partilhados.
Felizmente, no futuro vamos ouvir falar pouco daqueles que se passearam com Ferraris e têm os seus esquemas dissimulados em nome de familiares. São exemplos efémeros que têm de se esconder porque senão ainda acabam alvo da cobiça alheia.
Urge, deixar de ser individualista quando nos convém e colectivista quando nos interessa. As pessoas são os seres vivos que amadurecem mais lentamente. Têm tempo para aprender. Não só na escola, precisa-se de aprender… sempre.

domingo, 9 de outubro de 2011

A estação

Para mim a Vida não é uma sucessão de apeadeiros de comboio ou paragens de camioneta.
Não vamos daqui acolá para dizermos que já chegámos ao fim da viagem. A viagem física só acaba quando morrermos e, mesmo assim, há quem acredite, eu incluído, em vidas para além da morte.
Após ter lido “The station”, de Robert J. Hastings, fiquei ainda mais convencido que, tal como diz Machado, poeta de língua castelhana, “se hace el camiño al andar”.
O mais importante é, ao longo da viagem, ir construindo pontes, desfrutando dos laços e sorrindo sem azedume. Sei que não é fácil porque vivemos muito perto uns dos outros e, nem sempre, nos respeitamos.
Quando me deparei com o resgate de Portugal pela TROIKA, senti que, mais uma vez, as pessoas iriam considerar tal processo como um sonho e iriam ficar impacientes até que ele acabasse.
Não conseguimos antecipar o final do processo nem temos perspetivas do caminho para lá chegar. No entanto, estamos à espera que nos aconteça menos mal do que aos outros. Nunca pior…
Como afirma Hastings “…Mais tarde ou mais cedo vamos todos perceber que não há estação ou lugar para alcançar de imediato. A verdadeira alegria da vida é a viagem.”
Por outras palavras, é preciso ter calma e desfrutar no caminho da vida. Mesmo que os sacrifícios sejam muitos e estejamos habituados a ter a vida facilitada.
Apesar do desconforto aprendamos com mais esta etapa. Sintamos o sabor dos momentos que passam.
Não queiramos queimar as etapas e preencher o caderno das milhas das viagens supersónicas. Comam mais gelados, nadem mais vezes, observem mais pores-do-sol, riam mais e chorem menos. Enfim a vida é curta e temos de a viver enquanto a possuímos.
Até porque a estação física pode chegar mais depressa do que contamos…

PROZAC

A situação atual de desconfiança face aos políticos, em Portugal, afigurasse-nos como exemplar do não funcionamento, recorrente, do modelo de liderança que escolhemos para analisar neste artigo.
A orientação do voto para a direita do espectro político é, em nossa opinião, uma resposta intuitiva á falta de autenticidade do líder anterior. Os próprios seguidores do anterior líder sentiram uma espécie de alívio quando deixaram de ter um compromisso com ele.
O “walk the talk” (estou a fazer aquilo que digo que faço) concretizou-se durante muito tempo. O governante, de então, chegou a ter intenções de voto próximas de uma maioria. O que se passou?
Bom. O que se passou é do domínio da LA (Liderança Autêntica).
Sempre houve máscaras e comunicação social em demasia. A autenticidade foi construída com base numa premissa de imagem vendável na comunicação social. Enquanto conseguiu ser apartada da falta de honradez, sobreviveu. Nada de austeridade, muita moda e alguma novidade de comportamentos desportivos. O certo é que, agora, ninguém acredita que aquele líder fosse, verdadeiramente, ele próprio. A partir do momento em que já não foi possível “tapar o Sol com a peneira”, zás! Caiu…
Por outro lado, o contexto organizacional onde evoluímos, que era construído à imagem e semelhança do líder, não era desenvolvido e tão pouco eram positivos os comportamentos dos líderes e seguidores. Vivia-se um período de pouco desenvolvimento pessoal positivo. A corrupção passiva campeava e a figura execrável dos “boys” de então, ainda hoje atormenta os novos governantes.
Durante o “estado de graça” do governante, o seu carisma foi sendo burilado pelo gabinete de propaganda. As pessoas foram tratadas como pessoas, pelo menos em discurso. Fomos sendo confrontados com a desinstalação de grupos de pressão profissional que nos foi, a uns mais do que a outros, motivando. Como se não bastasse, o líder estimulava-nos a colocar questões, desde que não o colocassem em perigo.
No fundo, tal como nas finanças, tudo era virtual e, pior do que isso, tóxico. Não restou pedra sobre pedra. O governante foi embora e já quase nenhum dos seus seguidores se recorda do que foi a sua atividade e a que resultados nos levou. Parece que temos muita vontade de esquecer o que já não nos serve.
Ou seja, a pessoa, que o governante continua a ser, perdeu o brilho e queremos que ela não nos impeça de continuar o nosso caminho.
Melhor do que esta atitude esquizofrénica só tomando PROZAC.

O que faz falta é… Liderança Autêntica

Após tantos anos de engano e incapacidade começam, já há algum tempo, as pessoas a clamar por alguém que nos lidere. Depois de quarenta e “oito” anos de uma liderança autocrática, ruralista como a maioria do país e medrosa do contato pernicioso com o exterior, passámos para o “oitenta” das lideranças, fortes e fracas, europeístas, mas pouco autênticas.
Se entendermos o líder como o super-homem que alia em si um conjunto de capacidades pouco possível de encontrar na pessoa comum, então vai ser difícil encontrá-la por que o Clark Kent é uma ficção. Se descermos à terra podemos encontrar pessoas com capacidades, que podem ser desenvolvidas, de conduzir equipas de trabalho potenciando as suas qualidades e as dos que trabalham consigo, aprendendo sempre com as falhas de todos.
É neste contexto que devemos colocar a Liderança Autêntica (LA para simplificar). A comunidade científica e alguns práticos ajudaram a definir este conceito que, se for seguido com toda a atenção por todos nós, poderá evitar males maiores do que aqueles que já foram praticados. A ver..
A prática da LA evitará a incompetência, a rigidez, a falta de respeito pelos outros, a insensibilidade, a corrupção, a teimosia e a malvadez. Dir-me-ão: “Então não vai aparecer ninguém que consiga isso!”.
Realmente a condição humana, “a carne”, é fraca. Mas eu acho e acredito que é preciso tentar. É preciso treinar aqueles que, independentemente da idade ou geração, queiram melhorar a sua condição de seres humanos.
Os académicos da LA (Bruce Avolio, Waine Gardner e Fred Walumbwa) defendem mesmo que existem aspetos fundamentais na “construção” do líder autêntico. São eles: - - a consciência de si próprio – como qualquer um de nós pode ser líder, temos que ter consciência das nossas forças, dos nossos limites, da forma como os outros recebem os impactos dos nossos atos;
- a transparência – ter abertura para com os outros e ajudar a que as suas ideias e opiniões contribuam para o sucesso e realização de todos. Aceitar que não somos infalíveis e que temos “telhados de vidro”;
- a postura ética interiorizada – os comportamentos éticos devem corresponder ao que dizemos que queremos e fazemos. O respeito pelos outros não pode ser só da “boca para fora” ou durante o ritual dominical;
- o tratamento equilibrado da informação – é preciso ter coragem para assumir que nunca se soube ou sabe tudo. Estamos em permanente aprendizagem. Aprendemos com os outros. Precisamos de procurar o máximo, porque nunca alcançaremos a totalidade, da informação. As decisões importantes são, na sua esmagadora maioria, tomadas numa base de racionalidade limitada. Não conseguimos reunir toda a informação necessária.
Os práticos, de que realço Bill George, falam de uma espécie de bússola que deve acompanhar-nos sempre, para não perdermos o norte. O líder autêntico tem que ter objetivos, valores sólidos, autodisciplina, relações humanas potentes e deve, tanto como com a cabeça, dirigir com o coração.
Ou seja, a nossa vida é que deve ser autêntica. Devemos abater os muros que temos vindo a construir na nossa personalidade. Se a nossa matriz cultural é judaico-cristã, porque é que no trabalho somos autocráticos? Não significa amolecermos, significa o que os filósofos gregos clamavam: “Conhece-te a ti próprio”.

Com o lixo dos outros podemos nós bem

A maioria das pessoas está abismada.
- Então agora também somos “lixo”?.
Não, não foram as pessoas. As empresas públicas e privadas, que necessitam de pedir empréstimos no estrangeiro, é que foram consideradas pelas “agências de rating” incapazes de cumprir as suas obrigações futuras. Tais agências têm como principal função aconselhar, quem tem dinheiro para investir, qual a melhor e menos arriscada aplicação de capital. No fundo a sua ação corresponde a uma interpretação subjetiva de profissionais, que não acertam sempre, sobre o risco provável de insucesso dos investimentos.
As agências de rating prestariam um serviço precioso às mercearias, de antigamente, que tinham o “livro dos fiados”. Ou seja, o(a) merceeiro(a) só fiava a quem merecia, subjetivamente, a sua confiança. Quando existia vergonha isso era meio caminho andado para a confiança.
- O Beltrano tem um calote na venda! O Sicrano já não paga a renda há meio ano! Que vergonha!
Só que, hoje em dia, os calotes são já uma instituição. Quer dizer que os recebimentos são difíceis e o Homem do Fraque virou frase de chacota. Ficar a dever não é crime´, é crise, é necessidade.
Só que, alguns são mais protegidos que os outros. O rating era-lhes favorável, ainda podiam endividar-se com alguma facilidade. A partir de 7 de Julho de 2011, em Portugal, todas as empresas privadas e a Administração Pública, no seu todo, estão ao nível do “lixo”. Só lhes empresta dinheiro quem não for atento.
- É mentira, é um ultraje. Isto é perseguição!
Há anos que se previa este desfecho. O Euro não pode continuar a valorizar-se face ao dólar. A solução passa por convencer a alemã Merkl que basta de ser teimosa. Só desvalorizando politicamente o Euro, vamos conseguir estancar a sangria. Fala-se das “European Bonds”, títulos de crédito europeus garantidos pela União Europeia, como outra possibilidade.
Não saímos desta crise sozinhos e incólumes. Ou resolvemos isto todos juntos ou, então, não há só saída airosa para quem não deve. Estamos num ponto da civilização em que já não somos donos da totalidade do nosso destino.
A questão é: querem ou não sobreviver?

A Serra da Leba

A Serra da Leba
A sombra das luzes