quinta-feira, 3 de maio de 2012
A Liderança impecável, a Autêntica
Precisamos de acreditar e confiar nos nossos líderes. A autenticidade será o farol que nos ajudará a navegar nas águas revoltas da complexidade crescente.
A partir da falência de várias empresas americanas de referência (Enron, WorldCom) e da falta detetada de honradez, por parte dos líderes, emergiu um novo foco de interesse na liderança, a “liderança autêntica” (LA).
Na perspetiva dos profissionais, Bill George (2003), no seu livro “True North, Discovering your authentic Leadership” (2007), usou uma metáfora muito efetiva ao apresentar a autenticidade como o “verdadeiro norte” no mundo dos negócios.
Na abordagem dos investigadores, Luthans e Avolio (2003) ajudaram a melhorar o constructo e definiram a LA como “um processo, que se funda tanto nas capacidades psicológicas positivas como num contexto organizacional altamente desenvolvido, de que resulta maior autoconsciência e comportamentos positivos autorregulados por parte dos líderes e dos seguidores, promovendo o desenvolvimento pessoal positivo” (p.243).
A corrente da liderança transformacional (Bass 1985, 1990), onde se funda a LA, através da qual o líder consegue efeitos extraordinários nos resultados dos seguidores, postula que o líder transmite uma visão poderosa e positiva, para além de atender às necessidades individuais dos seus seguidores (Walumbwa et al., 2008)
No entanto, o líder transformacional não tinha, obrigatoriamente, que agir de forma moral e ética (Furmanczyk, 2010). Daí, as pessoas se sentirem traídas e muitas organizações colapsarem por falta de integridade dos seus líderes (Smith, Bhindi, Hansen, Riley & Rall, 2008).
Estudos recentes levados a cabo em diferentes partes do mundo, desde a China (Walumbwa et al., 2008) até à Nova Zelândia (Caza, Bagozzi, Wooley, Levy & Caza, 2010), passando, como é incontornável, pelos Estados Unidos (Walumbwa, Luthans, Avey & Oke, 2011), utizando o ALQ (Authentic Leadership Questionaire, Walumbwa et al., 2008), mostram que existe uma relação positiva entre a LA e várias variáveis psicossociais e organizacionais, como por exemplo, o capital psicológico, a satisfação dos seguidores no trabalho e com o líder, o comportamento de cidadania organizacional, a confiança, o comprometimento organizacional e o rendimento no trabalho.
Na AL há quatro dimensões características que descrevem o comportamento dos líderes e permitem o seu reconhecimento como autênticos:
Dimensões Descrição
Consciência de si próprio Diz respeito ao conhecimento que o líder tem das forças e debilidades de si próprio e dos outros e à consciência do líder sobre a influência que a sua conduta tem sobre os outros
Transparência relacional Tem a ver com as características do líder que se abre aos outros e se mostra tal como é, gerando um clima de confiança entre os seguidores que permita a partilha de pensamentos e de emoções
Processamento equilibrado da informação Refere-se às capacidades do líder que fazem com que se mostrem os objetivos e se analise, com cuidado, a informação relevante antes de tomar uma decisão, pelo que, os líderes podem pedir outras perspetivas mesmo que sejam contrárias às suas (Avolio & Gardner, 2005)
Moral interiorizada Relaciona-se com a autorregulação do comportamento segundo os valores e princípios pessoais, face às pressões do grupo, da organização ou da sociedade. Em resultado disso, a conduta do líder é consistente com as suas crenças e valores pessoais (Walumbwa et al., 2008)
(Adaptado de Walumbwa et al., 2008, p. 89)
Quando os líderes estão conscientes de como as suas ações afetam aqueles que estão à sua volta, estando abertos e transparentes aos processos e influências dentro e fora das suas organizações, os seguidores têm uma melhor noção dos objetivos/desafios organizacionais. Assim, medir a LA terá como base as perceções dos seguidores e dos líderes (Authentic Leadership Questionaire, Walumbwa et al., 2008).
Não se pode esperar por grandes resultados da liderança autêntica em contextos em que a confiança está abalada. No entanto, é nas alturas de crise que se descobrem as formas de preparar melhor o futuro.
Assim, estamos convictos que a autoconsciência é absolutamente fundamental na construção de excelentes organizações. Não se pode ser emocionalmente inteligente se não se for também autoconsciente. Isso exige, para além de maturidade, um intenso trabalho de introspeção. As críticas, mesmo as mais duras, são essenciais para a construção da autoconsciência. Para isso, é necessário conseguir um feedback honesto dos seguidores.
Ou seja, os seguidores também deverão ser autênticos. Se todos formos fiáveis, genuínos e verosímeis, as organizações serão melhores. Aqui ganham crucial importância os valores. Temos que assumir a existência de um quadro mínimo de valores em que todos acreditemos e consideremos ser vital cumprir.
Em paralelo, temos imensa necessidade de alguém que nos ouça, compreenda e, sobretudo, nos diga a verdade. Se praticarmos a autenticidade, é em equipa que esse apoio aparece. Os líderes autênticos têm de manter elevados níveis de motivação, especialmente nesta época de “acontecimentos gatilho”. Tal motivação extrínseca ajudará se for encarada como uma oportunidade de mudar o futuro.
Não há nada que se compare à autenticidade de um líder. Então, como é que cada um de nós pode tornar-se um líder autêntico?
• Falando com o coração, conquistam-se os nossos seguidores. Isso implica que, após se ter dito o que se quer fazer, se faça;
• Comunicando aberta e frequentemente com os outros, habituamo-nos a dialogar. É muito mais do que dizer só a verdade. A comunicação não é só composta por boas notícias. É o que há de bom, de mau e de indiferente;
• Deixando claro, desde o início, as expectativas e os padrões de comportamento que os seguidores e os próprios líderes têm de alcançar. Ser a mudança que se quer fazer;
• Procurando que as pessoas assumam os seus compromissos, refletindo sobre isso sem ressentimentos. Comprometer-se com a finalidade, não com o plano;
• Valorizando as pessoas e investindo nelas de forma a criar sentimentos de bem-estar e compromisso no seio do grupo de trabalho;
• Cuidando das pessoas sem nunca as infantilizar, exigindo-lhes responsabilidade e desenvolvendo bases morais e éticas.
Numa palavra, os líderes autênticos demonstram paixão pelos seus objetivos, praticam os seus valores consistentemente e lideram com o coração assim como com a cabeça. Eles definem o longo prazo, as relações significativas e têm a autodisciplina de conseguir resultados. Eles sabem quem são.
Referências
Bass, B.M. (1985). Leadership and performance beyond expectations. New York: The Free Press.
Bass, B. (1990). “From Transactional to Transformational Leadership: Learning to Share the Vision.” Organisational Dynamics, 19-31.
Furmanczyk, J. (2010). “The Cross-cultural Leadership Aspect.” Journal of Intercultural Management,Vol. 2, No. 2, November.
George, W. (2003) Authentic Leadership: Rediscovering the secrets to creating lasting value. San Francisco: Jossey-Bass
Luthans, F. & Avolio, B. (2003). “Authentic Leadership Development” in K. S. Cameron, S. E. Dutton, and R. E. Quinn (Eds.), Positive Organizational Scholarship – Foundations of a New Discipline, Berrett-Koehler, San Francisco, pp. 241-258.
Walumbwa, F., Avolio, B., Gardner, W., Wernsing, T. & Peterson, S. (2008). “Authentic Leadership: Development and validation of a theory-based measure.” Journal of Management, 34(1), 89-126.
Walumbwa, F.O., Luthans, F., Avey, J.B., & Oke, A. (2011). “Authentically leading groups: The mediating role of collective psychological capital and trust.” Journal of Organizational Behavior, 32, 4-24.
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