sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O triunfo das qualificações

Já não chega ter o "canudo", seja ele qual for.
O facto de se concluir um percurso de qualificação académica já não garante, por si só, um emprego e, mais difícil ainda, que assegure uma remuneração aliciante.
Parece uma verdade de "La Palisse" mas não é. As pessoas, que apostaram ou que tiveram quem apostasse em si, ao realizarem um percurso de qualificação criam expectativas no seu futuro e no emprego das suas capacidades. Se a qualificação obtida não os ajudar a conseguir os seus objectivos isso não será positivo para a dignificação dessa qualificação. É preciso que as pessoas se convençam que os "canudos" não são suficientes para se ter emprego e ganhar bem. É que os "canudos" têm que ter expressão nas capacidades e competências de cada um. Daí que, qualquer comparação entre "canudos" só faça sentido quando se estão a comparar pessoas com competências similares e, mesmo aí, isso só se justificará como critério de desempate em casos extremos. Não existem duas pessoas exactamente iguais. Ou seja, existem sempre características que podem levar o empregador a escolher entre duas ou mais pessoas. Tudo o resto é, mais inveja, menos inveja, uma questão de "democratização" das qualificações.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O homem do boné

O Senhor José Pereira da Silva, de Carvoeiro, acordou-me às 8 e meia de sábado. É homem para 80 e tal anos, tem figura meã, olhos vivos, chapéu enfiado, casaco coçado, calças de burel e o tradicional guarda-chuva à João Semana.
Quando abri a porta disparou logo:
- “Muito bom dia, meu Senhor. Não tenha medo que não são ladrões. Você é aqui de Santiago ou de Forjães?”
Respondi-lhe meio ensonado: - “O que é que o Senhor quer?”
Fez menção de tirar o chapéu, mantendo-o na cabeça, e foi logo ao assunto:
- “Sabe Senhor, agora com este temporal que veio, houve, lá no Carvoeiro, uma família, que tinha quatro vacas na loja, que lhe caiu a casa em cima. Foram todos para o hospital de Viana do Castelo. O gadinho, a Junta pagou-lhe mas, agora, o povo quer ver s’ arranja, nem que seja, um barraco de madeira para eles se meterem lá dentro. É cagora a mão-de-obra está muito cara e não se pode com ela. Olhe que o padre aqui de Santiago ajudou. Ele diz que pode acontecer a todos. Hoje foram eles, amanhã poderemos ser nós. Olhe que ele deu trinta contos. Veja o que pode dar.”
- “Mas que lata.” – Pensei eu. Com que então, um velho que ainda devia estar no lar da 3ªIdade a comer o pequeno-almoço, estava-me ali a contar uma história do arco-da-velha, com uma capacidade oratória superior à do melhor vendedor de automóveis de luxo, estava a tentar e a conseguir convencer-me que a solidariedade porta a porta ainda pode acontecer.
Então, perguntei-lhe, qual pergunta de controlo: -“ O padre de Quintiães também ajudou?”.
Respondeu-me: - “Quem?”.
Fiquei preocupado. Um homem com aquela cultura religiosa toda não conhecia o padre nem a freguesia de Quintiães. E disse-lhe: - “ Sim, o sr. Padre Américo.”
Desviou a conversa dizendo que eles, a família, estavam desgraçados e que todos nós devíamos ajudar por que isso iria ajudar a descontar nos nossos pecados.
Olhei para aquela figura insólita, pensei no seu ar descontinuado e disse-lhe: - “Você tem cá uma lata!”
- “ Não tenho nada. Já sou velho para isso e, sobretudo, não preciso. É mesmo para os ajudar.”
Passei-lhe para a mão dez euros e, de maneira policial, perguntei-lhe: - “Como é que o Senhor se chama?”
- “José Pereira da Silva.”
Despedi-me dizendo-lhe que aproveitasse o dia para fazer uma boa colecta lá para a família.
Aprumado, atirou-me: - “ Tem filhinhos? Vou rezar para que nada lhes aconteça.”.
Foi-se embora.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O sopro de vaidade

Apesar de tudo há pessoas que não conseguem resistir à vaidade. O vanity da língua inglesa que se associa regularmente às feiras e onde cabe todo um perfil da maioria dos políticos. Sim estou-me a referir à vaidade dos políticos em geral e de nenhum dos actuais políticos em particular. São os os minutos de fama que traçam e destraçam as carreiras.É o visual "práfrentex", os óculos Hugo Boss com aros em taratruga, o anel de brilhantes, o brinco na orelha direita, o nó de gravata pronto-a-vestir e o sapato, mais ou menos bicudo, e joanetes. Ai, o que a televisão não mostra e que, assim, não diminui a vaidade.
A oratória envolta na voz de barítono é fundamental. Quem estiver rouco não pode ter vaidade e até é encarado, com todo o carinho, como se de um deficiente se tratasse. Os momentos de fama, leia-se vaidade pura, acabam como começaram. Basta que a vaidade seja limitada por alguma deficiência, fortuita e improvável, para que a fama diminua e quase se extinga. Daí que, como a vida é curta, não se pode ter fama muitas vezes.
A vaidade e a fama só existem porque se consegue concitar a atenção dos outros. São os outros que nos conferem o direito à fama. Sózinhos não conseguíamos ser vaidosos. Por isso quando deixamos de ter um público que nos sustente a vaidade, descemos à realidade e à simplicidade.
De todas as drogas que se conhecem e, por alguns...poucos, já foram experimentadas, aquela que maior dose de adrenalina produz é, sem dúvida, a vaidade. É no momento que se vive a vaidade que se produzem, de forma excepcional, feromonas potentes. As várias passadeiras vermelhas da vida e os espelhos de ocasião ajudam os vaidosos a manter o status e o tonus em alta.
E nós, nunca fomos vaidosos?

domingo, 7 de fevereiro de 2010

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Meia-noite no Aeroporto da Portela, Lisboa, para muitos ainda “a capital do império”.
Estava tempo fresco e nebulado, era quase Inverno e tinha-se comemorado o 25 de Novembro de 1975 com marchas militares e a presença dos que ganharam poder no confronto.
Os elementos da equipa já se conheciam com excepção de Fáso, professor de Português, que tinha viajado directa e secretamente de Lovaina - A Nova, a católica, na Bélgica.
Era um nortenho que tinha fugido à guerra colonial e convivia, há muito, com a qualidade de vida europeia. Magrinho, calças estranhamente curtas, bem-falante, tinha olhos azuis, sorriso malandro e um bigode, tipo alemão, farfalhudo por descuido ou em puro exercício de imagem.
Vinha acompanhado de uma filha, herdada de uma ligação passada, com quem interagia com pretenso desprendimento. Foi a atracção da partida pela surpreendente e meteórica aparição.
Já o mesmo não se podia dizer do Larangeira que era, de longe, o mais descontraído após ter bebido duas garrafas de gin sem água tónica.
O seu estado normal era cronicamente ébrio e permanentemente consciente. Quando não bebia entrava em conflitos com a companheira, tornando-se perigoso e grosseiro.
Era escritor, ouvia com paixão as músicas de Brel, citava Kerouac e tinha quase passado à clandestinidade no 25 de Novembro de 1975. Era o titular de Ciências Naturais.
As palavras bailavam na boca sensual da Ivete, a chefe do grupo e professora primária, que namoriscava num canto com o seu mais recente companheiro de vidas e out-sider do projecto.
Magríssima e muito morena, tinha uma aura que a distinguia de todos. Ela era, sem dúvida, uma mulher muito experiente e sensível. Emanava uma serenidade que não era só aparente, quando se enervava era como um vulcão, tinha sido educada com pormenores de senhora da sociedade.
Pargas era o nome de guerra do companheiro da chefe de missão. Magríssimo, inteligente e por vezes enlouquecido tinha por tarefa revitalizar a edição do jornal de S. Tomé.
Tinha reportado acontecimentos marcantes da vida portuguesa da última década. Ele viu o Leão de Rio Maior fugir sem nunca mais ser visto. Sem gravador conversou com Salgueiro Maia no Carmo.
Enfim, a notícia era a sua maior amante e aliada.
A actriz Prima, professora de Movimento e Drama, era a imagem da leveza. Em estado larvar, pairava sobre o que acontecia e não se perturbava com nada nem ninguém.
Tinha sido educada numa família republicana de casta superior e a sua forma de estar era claramente elevada e distante. De vez em quando, qual soprano alemã, ciciava a sua opinião sem contudo levantar ondas.
Assumia a sua inferioridade em relação a Diogo e venerava-o silenciosamente.
Para encontrar o homem que iria preparar o regresso do Tchi-lo-li aos grandes palcos da Europa, coisa que não acontecia desde que o Barão de Água Izé tinha alugado a Ópera de Paris no ido século dezanove, havia que procurar na zona das free-shops.
Lá estava o Diogo, companheiro de Prima, que tinha sido figurante no filme “Alcácer Quibir” e tinha exigido, em pleno deserto, água mineral engarrafada para matar a sede.
Um aventureiro experiente e com sentido de oportunidade procurava abastecer-se sem taxas.
Mais ao longe, na esquina do café, sentava-se Flor com a filha no colo e um livro na mão.
Cabia-lhe lidar com a Psicologia no curso e não só. Tinha medo de voar e tomara dois Valium 5.
Já tinha tomado cinco cafés e cabeceava com sono. Lia para não se deixar adormecer enquanto embalava a Sofia. A sua hora era outra, mais tardia e agitada. Agora estava em fase de introspecção.
O professor de Matemática, Alido, vinha do Porto e tinha sotaque de Coimbra. Moreno, meio indiano, meio cigano, era o menos experiente da expedição e também o mais novo.
Acompanhado pela mulher, bastante jovem, e pela filha Sara ainda pequena, apostava o seu futuro. Tinha tido, mais uma vez, a ajuda que sempre o protegera de males maiores.
São Tomé representava a sua libertação de um meio familiar mesquinho em que a relação com Rafaela não ganhara espaço para ser posta à prova.
Nunca tinha estado em África e não temia o desconhecido. Tudo seria preferível a continuar em Portugal. Era preciso sair…
Alheio aos dramas, representando a ONG responsável pelo projecto, Louis viajava com o grupo.
Cabia-lhe ajudar à instalação e clarificação das condições de trabalho. Tinha a estratégia bem delineada para que a missão não falhasse. A organização a que pertencia confiou-lhe as decisões sobre as nossas vidas.
Os dados estavam lançados.

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O avião partiu, sem atrasos, em direcção a Sul, às duas horas do dia vinte e seis. Para Alido, Rafaela e Sara era o baptismo de voo.
O barulho dos motores em potência máxima e o arranque que se lhe seguiu foram surpresas para principiantes. A tensão foi grande mas, mais uma vez, tudo iria acabar bem.
Quando o avião estabilizou já as luzes da “Capital do Império” tinham ficado para trás e as hospedeiras colocavam a comida de plástico a aquecer.
Em Turística, uma regra de ouro da aviação aproximou a cozinha dos que, em função da bolsa, demonstram mais apetite - cheira sempre mal quando se aquece a comida. Uma explicação passará pelo facto de o ar condicionado não se dar bem com os cheiros daquele sabor a carne ou peixe com cenouras estufadas.
São pelo menos duas horas a servir, recolher e arrumar os tabuleiros. Toma-se café e bebem-se digestivos na secreta esperança de que não sejam os últimos. Viajar calmamente de avião implica a ajuda de indutores de tranquilidade e a ingestão de pequenas quantidades de álcool produz rápidos efeitos vasodilatadores devido à altitude.
A vida fervilha no interior da cabina e tenta-se não desesperar na fila da toillete. Quando se consegue entrar no reduzido espaço a sensação é de claustrofobia aguda e, não fossem as necessidades por controlar, sair tornar-se-ia uma prioridade.
O regresso ao lugar processa-se com lentidão até ao preciso momento em que o comandante, com aquela voz roufenha e distante, informar que a turbulência ia chegar e que se deviam apertar os cintos.
A primeira vez que se sente um “poço de ar” teme-se que o avião caia ali mesmo. São segundos em que a sensação de vazio se apodera dos sentidos e cada um se tenta agarrar a si próprio antes do pânico.
No Golfo da Guiné estas situações são normais pelo que a hora da refeição já prevê as subsequentes quedas livres do avião.
A TAP, na altura a linha aérea oficial portuguesa, ainda operava com aviões Boeing 707 e o voo Lisboa – São Tomé não era regular. Esta era uma experiência para testar as possibilidades de efectuar a viagem sem escala e utilizando aviões com maior capacidade. Os voos regulares da T.A.P. tinham escala em Luanda, partindo para São Tomé metade dos passageiros, de cada vez, num Boeing 737 da T.A.A.G., transportadora angolana.
Quase ninguém, talvez só mesmo os luandinos, gostava de efectuar escala no Aeroporto 4 de Fevereiro em Luanda.
Não funcionava o ar condicionado e era um martírio esperar por transporte sem qualquer corrente de ar num clima tropical e em edifício com vidros duplos nas janelas. Muitas vezes tentava-se dormir com sacos plásticos nos pés e blusas sobre a cara por causa dos mosquitos.
Ainda o estômago se recompunha do poço de ar e o comandante fustigava de novo os passageiros com aquela voz que parecia vir de longe:
- Senhores passageiros, mantenham os cintos apertados pois vamos iniciar a descida para São Tomé.
O avião estava a dez quilómetros de altitude em cima do Oceano Atlântico sobre o Equador. O aeroporto de São Tomé não tinha meios sofisticados de comunicação, só um radiofarol.
O piloto apercebeu-se da ilha praticamente em cima e iniciou uma descida vertiginosa sem respeito por quaisquer patamares de descida. Os ouvidos contraíram-se, latejaram, entupiram e deixaram de funcionar.
Foram vinte minutos de solidão e de voo picado em direcção ao mar. Depois, a pista estendeu-se, durante pouco mais que um quilómetro, da praia até um morro estrategicamente colocado no final. O 707 apontou e tocou no chão a dois terços do final do percurso. Inversão de reactores, travões, flaps…tudo. O avião empinou-se e parecia que se ia esborrachar contra o morro.
Fé, perícia e muita sorte até que o piloto parou o avião. Os passageiros, violentados e zonzos, bateram palmas ao piloto e a si próprios.
O comandante guiou o avião para a zona de desembarque, deu ordem de abertura das portas, parou os motores e desligou o ar condicionado. O sinal dos cintos desapareceu e o calor das sete horas locais invadiu a cabina.
As roupas europeias começaram a pesar nas costas e nas coxas. O frio e a névoa tinham ficado definitivamente para trás. Pegaram-se as bagagens de mão e os passageiros alinharam-se para a saída.
O contacto com a humidade foi brutal. Encher o peito de ar era equivalente a uma engasgadela, tal a concentração de vapor de água. O nariz entupia-se com as gotículas que nele se formavam. Era preciso respirar mais devagar com aquela pressão.
O Sol era maiúsculo, forte e quente àquela hora da manhã e, pior que isso, o suor encardiu a comitiva.
A sala de passageiros era pequena e também lá não existia ar condicionado. Duas ventoinhas chinesas funcionavam a toda a velocidade difundindo o calor.
Foram precisos longos minutos para abrir e vistoriar bagagens, controlar vistos e passaportes.
Para Alido foi um momento, mais um, de paragem no percurso que tinha iniciado há muito.

A Serra da Leba

A Serra da Leba
A sombra das luzes