A certa altura os menores pararam de trabalhar e esconderam-se no sótão da pequena fabriqueta de sapatos ali, mesmo ali, bem perto do centro de Felgueiras.
Era a Inspecção do Trabalho que vinha cumprir o seu papel após mais uma denúncia, provavelmente da concorrência mais próxima.
Hoje que nos queixamos da concorrência asiática também a denunciamos na sua caminhada pelo dumping social.
Como alguém disse recentemente em viagem ministerial, uma das vantagens comparativas da economia portuguesa é o preço da mão-de-obra.
Temos de admitir que as civilizações e as pessoas, uma após outra, ganharam a sua riqueza e notoriedade alicerçadas em mão-de-obra barata ou escrava.
Atenas só conseguiu o estatuto de civilização com a refinação dos cidadãos, leia-se discriminação social, racial e intelectual. Os surdos, por exemplo, eram eliminados. Os escravos seriam defendidos até ao último dracma.
Roma não teria tido circo sem gladiadores escravizados. Os patrícios eram amantes da luta entre os outros. Quem gostaria de morrer na arena se isso pudesse evitar.
Os coronéis do sertão, no Brasil, só à força e com escravos acumularam a riqueza da terra.
Nos E.U.A., os senhores do algodão, agora do petróleo, ganharam dinheiro que permitiu manter a guerra da Secessão. Antes, outros já tinham aniquilado os peles-vermelhas, visto estes não se deixarem escravizar.
Esta acumulação com base da mão-de-obra mais barata que há é, também, a mais rápida. Só é possível compará-la, em termos de rapidez, com a acumulação baseada na pirataria.
Que potência seria hoje a Inglaterra se o namorado de Isabel I, Francis Drake, não tivesse inventado a pirataria institucional. Roubar aos ricos para enriquecer a coroa inglesa.
Foram os corsários, legalizados temporariamente, que permitiram a formação do capital inicial da Companhia das Índias.
No entanto, a acumulação por si só não chega, é necessário expandi-la. A velha máxima “dinheiro faz dinheiro” não é fortuita. Os britânicos conseguiram montar uma estrutura multiplicadora da utilização do capital. As organizações britânicas, constituídas por ingleses, potência vencedora dos conflitos regionais, mas sobretudo por escoceses, reconhecidos pela sua avareza, foram estruturadas para ter sucesso.
Em complemento a religião anglicana não diabolizava o lucro, ao contrário das antigas potências católicas, que consideravam a usura e o lucro pecados capitais.
Por outro lado, a riqueza iludiu os espanhóis e os portugueses que não conseguiram estruturar as suas organizações de forma adaptada à concorrência. Quando se aperceberam estavam ultrapassadas e, sobretudo, perfeitamente decrépitas face à modernidade e agilidade das novas organizações britânicas.
Em simultâneo produzia-se conhecimento económico e social que sustentava tal superioridade. Adam Smith, David Ricardo, entre outros, “eram pagos para pensar”. E os resultados não tardaram. Depois da derrota da Armada Invencível espanhola e controlado o comércio marítimo internacional, em parceria com a Holanda, o Reino Unido iniciou o processo de utilização das riquezas portuguesas. E começou bem, pelo vinho…
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Somos um país de atrasos e de fugas para a frente
Somos um país de atrasos e de fugas para a frente.
Para além de tudo o que de bom existe, este país é um alfobre de descontinuidades. Não tenhamos dúvida que as descontinuidades são responsabilidade nossa.
De uma forma geral, aquilo que acontece mal quase nunca depende da responsabilidade individual. Não há a cultura da humildade intelectual. Não há a cultura da assumpção do ónus da responsabilidade. A culpa morre sempre solteira.
É normal, é perfeitamente normal fugir-se às responsabilidades. Não acontece nada se desrespeitarmos as regras e não formos apanhados. Joga-se com as probabilidades e com a sorte.
O exemplo mais comum de descontinuidades irresponsáveis acontece na circulação rodoviária. No mínimo, a irresponsabilidade de um grande número de condutores reflecte-se no prémio anual do seguro a pagar por cada um. Se não há cultura de responsabilidade, pagam todos, até os cumpridores.
“Errar é humano” é a frase que os jovens aprendem mais cedo a citar.
Depois da frase é só errar à vontade pois, quem é que nunca errou?
Se a esta lógica aliarmos a parábola dos “telhados de vidro” então temos “pano para mangas”.
Perante este quadro caberia à escola desempenhar o papel de normalizadora dos comportamentos e aferidora das reacções, orientando e dando bons exemplos. Não o tem conseguido, principalmente, devido ao efeito contra intuitivo das fugas para a frente por parte dos educadores.
Não existe um protocolo das linhas de conduta dos profissionais face à responsabilização e exigência que deveriam transmitir aos alunos de modo a prepará-los para a vida em sociedade. Aquilo que para uns é uma regra, para outros é uma imposição. A chamada de atenção é, muitas vezes, incompreendida pelo aluno devido à “novidade” da regra que sempre existiu mas não é cumprida. Não há controle do cumprimento das regras até à ocorrência dos conflitos.
A saída é a fuga para a frente. Não ver nem ser visto é condição para nos mantermos tranquilos e livres de conflitos. Só se molha quem anda à chuva. Não morreu ninguém, pois não? Então “siga a rusga” e assobiemos para o ar. Vivamos um dia de cada vez.
Por outro lado, se a responsabilidade não é ensinada na escola, em casa também não o é.
A presença dos mais velhos e o controle, daí resultante, dos comportamentos dos mais jovens praticamente desapareceu. O jovem está cada vez mais entregue a si próprio e os exemplos são derivados da informática, dos vídeo jogos e da televisão. Não havendo controle como pode haver responsabilização?
Os mais novos começam a constatar que as regras só se cumprem se daí resultarem vantagens. É o utilitarismo que conduz, muitas vezes, à irresponsabilidade. Face a isto, o sistema só pode melhorar se houver uma sanção após a delação das fugas à responsabilidade. E quem é que vai ser o “Big Brother”?
Este processo de irresponsabilização colectiva vai conduzir, mais tarde ou mais cedo, a um regresso a formas musculadas de condução das sociedades, leia-se défice democrático.
Para aqueles que acreditam nas vantagens da democracia e que a consideram o sistema menos mau de todos, aqui fica o nosso alerta e preocupação.
Para além de tudo o que de bom existe, este país é um alfobre de descontinuidades. Não tenhamos dúvida que as descontinuidades são responsabilidade nossa.
De uma forma geral, aquilo que acontece mal quase nunca depende da responsabilidade individual. Não há a cultura da humildade intelectual. Não há a cultura da assumpção do ónus da responsabilidade. A culpa morre sempre solteira.
É normal, é perfeitamente normal fugir-se às responsabilidades. Não acontece nada se desrespeitarmos as regras e não formos apanhados. Joga-se com as probabilidades e com a sorte.
O exemplo mais comum de descontinuidades irresponsáveis acontece na circulação rodoviária. No mínimo, a irresponsabilidade de um grande número de condutores reflecte-se no prémio anual do seguro a pagar por cada um. Se não há cultura de responsabilidade, pagam todos, até os cumpridores.
“Errar é humano” é a frase que os jovens aprendem mais cedo a citar.
Depois da frase é só errar à vontade pois, quem é que nunca errou?
Se a esta lógica aliarmos a parábola dos “telhados de vidro” então temos “pano para mangas”.
Perante este quadro caberia à escola desempenhar o papel de normalizadora dos comportamentos e aferidora das reacções, orientando e dando bons exemplos. Não o tem conseguido, principalmente, devido ao efeito contra intuitivo das fugas para a frente por parte dos educadores.
Não existe um protocolo das linhas de conduta dos profissionais face à responsabilização e exigência que deveriam transmitir aos alunos de modo a prepará-los para a vida em sociedade. Aquilo que para uns é uma regra, para outros é uma imposição. A chamada de atenção é, muitas vezes, incompreendida pelo aluno devido à “novidade” da regra que sempre existiu mas não é cumprida. Não há controle do cumprimento das regras até à ocorrência dos conflitos.
A saída é a fuga para a frente. Não ver nem ser visto é condição para nos mantermos tranquilos e livres de conflitos. Só se molha quem anda à chuva. Não morreu ninguém, pois não? Então “siga a rusga” e assobiemos para o ar. Vivamos um dia de cada vez.
Por outro lado, se a responsabilidade não é ensinada na escola, em casa também não o é.
A presença dos mais velhos e o controle, daí resultante, dos comportamentos dos mais jovens praticamente desapareceu. O jovem está cada vez mais entregue a si próprio e os exemplos são derivados da informática, dos vídeo jogos e da televisão. Não havendo controle como pode haver responsabilização?
Os mais novos começam a constatar que as regras só se cumprem se daí resultarem vantagens. É o utilitarismo que conduz, muitas vezes, à irresponsabilidade. Face a isto, o sistema só pode melhorar se houver uma sanção após a delação das fugas à responsabilidade. E quem é que vai ser o “Big Brother”?
Este processo de irresponsabilização colectiva vai conduzir, mais tarde ou mais cedo, a um regresso a formas musculadas de condução das sociedades, leia-se défice democrático.
Para aqueles que acreditam nas vantagens da democracia e que a consideram o sistema menos mau de todos, aqui fica o nosso alerta e preocupação.
As culturas fracas e as culturas fortes
As culturas fracas e as culturas fortes
Quando começamos a falar de cultura acaba-se, invariavelmente, por falar daquela que o senso comum identifica com as manifestações de cultura: os espectáculos e os livros.
Como o médico de família quando encara as gripes em curso, devemos perceber o que está por detrás dessas manifestações que o senso comum tanto admira e critica.
Assim, a cultura de uma organização, que se apresenta conceptualmente autónoma face à cultura em sentido lato, corresponde ao conjunto de normas, valores e crenças que são interiorizados e partilhados pelos membros de uma organização.
De um modo geral, os indivíduos necessitam de acreditar em algo que os transcenda. É mais fácil, mais cómodo e libertador que exista um esquema mental de apaziguamento das inquietações. Se troveja uns pensam no fenómeno físico em presença e outros desfiam ladainhas.
De facto, o ser humano sente-se mais seguro quando existe ajuda.
A cultura de uma organização cumpre esse papel. Ela contribui para que os membros da organização sintam de modo claro que a coesão, a lealdade e o empenhamento só os beneficia e protege.
Quanto mais forte for a cultura, ou seja, quanto mais os membros aceitarem a cultura e nela se empenharem, menores serão as inquietações.
A força de qualquer cultura está relacionada com a profundidade dos seus princípios, a extensão da sua influência e a simplicidade e clareza dos seus objectivos.
Os princípios, as regras e as normas devem influenciar o coração da organização. Correm risco de desagregação e inevitável fracasso todos os princípios que somente aflorem as atitudes e comportamentos.
Uma cultura que não alcance a maioria dos membros da organização rapidamente entra em colapso e é substituída por outra.
A confusão nos objectivos conduz a organização a uma nova liderança e a uma mudança de cultura.
É fácil entender porque é que todas as organizações desejam ter culturas fortes. É a sua sobrevivência que está em causa. Como as organizações só existem porque as pessoas o desejam, lá voltamos, outra vez, às inquietações.
No entanto, também nas organizações é necessário mostrar que a cultura existe. Já repararam que a maior parte das empresas e outras organizações tem um plano anual de realizações culturais? A festa de Natal, a entrega dos prémios aos mais eficientes e capazes…
Mas, mais do que culturas fracas ou fortes, a preocupação, da organização e dos seus líderes, deverá ser criar e manter uma cultura eficaz e que dê resposta aos desafios da mudança. A qualidade, a competitividade e a dignidade conquistam-se permanentemente.
Quando começamos a falar de cultura acaba-se, invariavelmente, por falar daquela que o senso comum identifica com as manifestações de cultura: os espectáculos e os livros.
Como o médico de família quando encara as gripes em curso, devemos perceber o que está por detrás dessas manifestações que o senso comum tanto admira e critica.
Assim, a cultura de uma organização, que se apresenta conceptualmente autónoma face à cultura em sentido lato, corresponde ao conjunto de normas, valores e crenças que são interiorizados e partilhados pelos membros de uma organização.
De um modo geral, os indivíduos necessitam de acreditar em algo que os transcenda. É mais fácil, mais cómodo e libertador que exista um esquema mental de apaziguamento das inquietações. Se troveja uns pensam no fenómeno físico em presença e outros desfiam ladainhas.
De facto, o ser humano sente-se mais seguro quando existe ajuda.
A cultura de uma organização cumpre esse papel. Ela contribui para que os membros da organização sintam de modo claro que a coesão, a lealdade e o empenhamento só os beneficia e protege.
Quanto mais forte for a cultura, ou seja, quanto mais os membros aceitarem a cultura e nela se empenharem, menores serão as inquietações.
A força de qualquer cultura está relacionada com a profundidade dos seus princípios, a extensão da sua influência e a simplicidade e clareza dos seus objectivos.
Os princípios, as regras e as normas devem influenciar o coração da organização. Correm risco de desagregação e inevitável fracasso todos os princípios que somente aflorem as atitudes e comportamentos.
Uma cultura que não alcance a maioria dos membros da organização rapidamente entra em colapso e é substituída por outra.
A confusão nos objectivos conduz a organização a uma nova liderança e a uma mudança de cultura.
É fácil entender porque é que todas as organizações desejam ter culturas fortes. É a sua sobrevivência que está em causa. Como as organizações só existem porque as pessoas o desejam, lá voltamos, outra vez, às inquietações.
No entanto, também nas organizações é necessário mostrar que a cultura existe. Já repararam que a maior parte das empresas e outras organizações tem um plano anual de realizações culturais? A festa de Natal, a entrega dos prémios aos mais eficientes e capazes…
Mas, mais do que culturas fracas ou fortes, a preocupação, da organização e dos seus líderes, deverá ser criar e manter uma cultura eficaz e que dê resposta aos desafios da mudança. A qualidade, a competitividade e a dignidade conquistam-se permanentemente.
A Matriz
De acordo com um dos maiores economistas portugueses, Ernâni Lopes, ministro do Governo de Mário Soares que preparou a entrada na então CEE, “…todos os momentos decisivos, de crise e de afirmação da existência de Portugal, mostram o peso concreto (político, económico e cultural) da utilização desta dinâmica geopolítica da contraposição entre o marítimo e o continental em que, do ponto de vista analítico, encontramos a chave da compreensão do fenómeno português: a única estrutura política, saída da Reconquista Cristã na Península Ibérica, que mantém a sua independência política face ao poder aglutinador de Castela.”
Se o país actual, como afirma António Barreto na sua série televisiva, nada tem a ver com o país de há 50 anos atrás, essa transformação foi no mínimo, contraditória e pontuada por mal-entendidos, sobretudo, no tocante à construção de uma matriz identitária.
A matriz identitária de uma sociedade, ou de uma organização, é desenhada pelos diversos posicionadores a que recorrem os povos, ou as pessoas, para se orientar e progredir.
Se analisarmos os factos no tempo, a opção da abertura de Portugal ao exterior, no início dos anos 60, vingou entre as elites económicas mas, sempre foi considerada perigosa pelos que nela viam o fim da nacionalidade. De facto, a matriz identitária do Estado Novo nunca considerou a comunicação com a Europa como traço estratégico.
Salazar recusou-se sempre a apanhar o Sud-Express na estação de Santa Comba Dão. Foram décadas de autarcia e obscurantismo na vida de um povo a quem tinha ficado pouco a que se agarrar. Sem o fado, sem o futebol e sem Fátima, a matriz não teria resultado.
A matriz identitária, definida pelo financista beirão, sobreviveu em Portugal nos últimos cinquenta anos porque nenhum movimento ideológico ou partidário conseguiu criar outra para se constituir como alternativa.
O 25 de Abril de 74 resultou da erosão da matriz salazarenta mas não a substituiu nem extinguiu, tentou escondê-la sem criar alternativas credíveis.
O 25 de Novembro de 75 foi um evitar de guerra civil a que se seguiu, devido à ascensão e manutenção de Ramalho Eanes, um fogacho identitário que desembocou no PRD, de Manuel Martinho, que morreu antes de se constituir como alternativa.
Mário Soares tentou pegar nas pontas da matriz mas enredou-se na necessidade de responder às exigências do FMI e da dívida pública, colocando-nos na CEE. Não houve tempo, nem arte para mais nada.
Cavaco Silva, o homem que não lia jornais portugueses mas era aceite lá fora. Sendo, também ele, resultado da matriz supracitada, quase que reunia as condições para redesenhar a identidade portuguesa. Houve dinheiro, estabilidade governativa e carisma pessoal. No entanto, faltou massa crítica aderente. Cavaco não conseguiu ganhar os intelectuais, com excepção, talvez, de Agustina Bessa Luís, Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura. Não foi suficiente e, sobretudo, o tempo passava sem se pegar na essência da matriz identitária portuguesa: o estar no mundo.
Virados sobre si próprios, os portugueses demoram tempo a aceitar que estão no mundo, para o mal e para o bem. Os milhões de emigrantes e, mais recentemente, o mediático José Mourinho, trouxeram ao de cima a capacidade de sabermos estar no mundo.
Urge apostar numa matriz que nos permita sem atavismos, outra vez, estar no mundo.
É que a matriz é muito mais que um ou alguns traços avulsos. É, fundamentalmente, um modelo mental que cada um de nós perceba e utilize no dia a dia para sermos felizes.
Se o país actual, como afirma António Barreto na sua série televisiva, nada tem a ver com o país de há 50 anos atrás, essa transformação foi no mínimo, contraditória e pontuada por mal-entendidos, sobretudo, no tocante à construção de uma matriz identitária.
A matriz identitária de uma sociedade, ou de uma organização, é desenhada pelos diversos posicionadores a que recorrem os povos, ou as pessoas, para se orientar e progredir.
Se analisarmos os factos no tempo, a opção da abertura de Portugal ao exterior, no início dos anos 60, vingou entre as elites económicas mas, sempre foi considerada perigosa pelos que nela viam o fim da nacionalidade. De facto, a matriz identitária do Estado Novo nunca considerou a comunicação com a Europa como traço estratégico.
Salazar recusou-se sempre a apanhar o Sud-Express na estação de Santa Comba Dão. Foram décadas de autarcia e obscurantismo na vida de um povo a quem tinha ficado pouco a que se agarrar. Sem o fado, sem o futebol e sem Fátima, a matriz não teria resultado.
A matriz identitária, definida pelo financista beirão, sobreviveu em Portugal nos últimos cinquenta anos porque nenhum movimento ideológico ou partidário conseguiu criar outra para se constituir como alternativa.
O 25 de Abril de 74 resultou da erosão da matriz salazarenta mas não a substituiu nem extinguiu, tentou escondê-la sem criar alternativas credíveis.
O 25 de Novembro de 75 foi um evitar de guerra civil a que se seguiu, devido à ascensão e manutenção de Ramalho Eanes, um fogacho identitário que desembocou no PRD, de Manuel Martinho, que morreu antes de se constituir como alternativa.
Mário Soares tentou pegar nas pontas da matriz mas enredou-se na necessidade de responder às exigências do FMI e da dívida pública, colocando-nos na CEE. Não houve tempo, nem arte para mais nada.
Cavaco Silva, o homem que não lia jornais portugueses mas era aceite lá fora. Sendo, também ele, resultado da matriz supracitada, quase que reunia as condições para redesenhar a identidade portuguesa. Houve dinheiro, estabilidade governativa e carisma pessoal. No entanto, faltou massa crítica aderente. Cavaco não conseguiu ganhar os intelectuais, com excepção, talvez, de Agustina Bessa Luís, Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura. Não foi suficiente e, sobretudo, o tempo passava sem se pegar na essência da matriz identitária portuguesa: o estar no mundo.
Virados sobre si próprios, os portugueses demoram tempo a aceitar que estão no mundo, para o mal e para o bem. Os milhões de emigrantes e, mais recentemente, o mediático José Mourinho, trouxeram ao de cima a capacidade de sabermos estar no mundo.
Urge apostar numa matriz que nos permita sem atavismos, outra vez, estar no mundo.
É que a matriz é muito mais que um ou alguns traços avulsos. É, fundamentalmente, um modelo mental que cada um de nós perceba e utilize no dia a dia para sermos felizes.
A cegueira
A cegueira de alguns acaba, a maior parte das vezes, por resultar na melhor visão para outros. Se esta não fosse uma verdade quase simples, era de certeza uma verdade quase inconveniente.
A remodelação hiper, super, maxi de um governo que se esboroa cada dia que passa, é assunto pelo qual podemos desfiar o nosso novelo de curiosidades. Se a confiança continua a ser uma atitude associada a um valor, a verdade, o nosso imaginário fende-se a cada segundo que passa. Mas não podemos esquecer o amor e, sobretudo, a paixão.
“Dizem que as mães/ querem mais/ ao filho que/mais mal faz/ Por isso te quero tanto/ e tantas mágoas me dás” – é a primeira estrofe da letra de um fado de Coimbra com o nome de SOLITÀRIO.
Se a letra não fosse antiga poderíamos concluir que se adaptava que nem uma luva ao actual estado da política em Portugal. Quase me atreveria a comparar esse estado com a expressão de senso deformado “quanto mais me bates, mais eu gosto de ti”.
O primeiro-ministro e o seu colégio usaram e abusaram destas estratégias emocionais na condução da governança. Mostraram inflexibilidade e autoritarismo na condução dos dossiers mais impopulares e o povo profundo aceitou e quase gostou. Perdoavam a maldade que era feita por troca do bem futuro.
Os sacrifícios foram encarados como se de castigos se tratassem. Ou seja, tínhamo-nos portado mal antes. Alguns, porque nem todos eram objecto das penalizações. Enquanto não tocasse a muitos, a vida ia andando.
Mas o barco começa a meter água. O mar está eriçado e a navegação à vista requer mais do que simples vontade. Exige-se competência, eficiência e, de preferência, muita eficácia.
Onde estão as concretizações das promessas e a distribuição da felicidade pela base social de apoio? Há fogos ateados por todo o lado e muito fumo de insatisfação.
Quase ninguém está satisfeito com ninguém. Navegamos num mar de esquizofrenia intelectual inaudito. Até as equipas de futebol de referência incutem défices de satisfação nos apoiantes.
Era preciso tomar aquelas medidas para melhorar os sistemas. Aí não podemos esquecer a hábil manipulação, por parte do governo, das invejas paroquiais e corporativas. Só que as compensações tardaram. A presidência Europeia acabou e o Tratado de Lisboa já foi esquecido. Caímos na real…
A realidade que fomos, solidariamente, construindo ultrapassou-nos. Não dependemos só de nós para construir o futuro. Não aprendemos sozinhos, os outros estão aí. Vai ser isso que nos vai ter de preocupar. Vivemos num mundo sem pruridos económicos e temos de sobreviver.
Sobreviver com dignidade e sem encenações.
Quando deixarmos de acreditar nos outros e a verdade passar a ser vista como um mero conceito ético pragmático chegou a altura de partir…
Ou de chegar à conclusão de que falhámos e devemos assumi-lo. Mais, devemos arranjar o que estragámos. Quem estraga velho, paga novo… que preste.
A remodelação hiper, super, maxi de um governo que se esboroa cada dia que passa, é assunto pelo qual podemos desfiar o nosso novelo de curiosidades. Se a confiança continua a ser uma atitude associada a um valor, a verdade, o nosso imaginário fende-se a cada segundo que passa. Mas não podemos esquecer o amor e, sobretudo, a paixão.
“Dizem que as mães/ querem mais/ ao filho que/mais mal faz/ Por isso te quero tanto/ e tantas mágoas me dás” – é a primeira estrofe da letra de um fado de Coimbra com o nome de SOLITÀRIO.
Se a letra não fosse antiga poderíamos concluir que se adaptava que nem uma luva ao actual estado da política em Portugal. Quase me atreveria a comparar esse estado com a expressão de senso deformado “quanto mais me bates, mais eu gosto de ti”.
O primeiro-ministro e o seu colégio usaram e abusaram destas estratégias emocionais na condução da governança. Mostraram inflexibilidade e autoritarismo na condução dos dossiers mais impopulares e o povo profundo aceitou e quase gostou. Perdoavam a maldade que era feita por troca do bem futuro.
Os sacrifícios foram encarados como se de castigos se tratassem. Ou seja, tínhamo-nos portado mal antes. Alguns, porque nem todos eram objecto das penalizações. Enquanto não tocasse a muitos, a vida ia andando.
Mas o barco começa a meter água. O mar está eriçado e a navegação à vista requer mais do que simples vontade. Exige-se competência, eficiência e, de preferência, muita eficácia.
Onde estão as concretizações das promessas e a distribuição da felicidade pela base social de apoio? Há fogos ateados por todo o lado e muito fumo de insatisfação.
Quase ninguém está satisfeito com ninguém. Navegamos num mar de esquizofrenia intelectual inaudito. Até as equipas de futebol de referência incutem défices de satisfação nos apoiantes.
Era preciso tomar aquelas medidas para melhorar os sistemas. Aí não podemos esquecer a hábil manipulação, por parte do governo, das invejas paroquiais e corporativas. Só que as compensações tardaram. A presidência Europeia acabou e o Tratado de Lisboa já foi esquecido. Caímos na real…
A realidade que fomos, solidariamente, construindo ultrapassou-nos. Não dependemos só de nós para construir o futuro. Não aprendemos sozinhos, os outros estão aí. Vai ser isso que nos vai ter de preocupar. Vivemos num mundo sem pruridos económicos e temos de sobreviver.
Sobreviver com dignidade e sem encenações.
Quando deixarmos de acreditar nos outros e a verdade passar a ser vista como um mero conceito ético pragmático chegou a altura de partir…
Ou de chegar à conclusão de que falhámos e devemos assumi-lo. Mais, devemos arranjar o que estragámos. Quem estraga velho, paga novo… que preste.
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A sombra das luzes