quinta-feira, 16 de junho de 2011

Somos um país de atrasos e de fugas para a frente

Somos um país de atrasos e de fugas para a frente.
Para além de tudo o que de bom existe, este país é um alfobre de descontinuidades. Não tenhamos dúvida que as descontinuidades são responsabilidade nossa.
De uma forma geral, aquilo que acontece mal quase nunca depende da responsabilidade individual. Não há a cultura da humildade intelectual. Não há a cultura da assumpção do ónus da responsabilidade. A culpa morre sempre solteira.
É normal, é perfeitamente normal fugir-se às responsabilidades. Não acontece nada se desrespeitarmos as regras e não formos apanhados. Joga-se com as probabilidades e com a sorte.
O exemplo mais comum de descontinuidades irresponsáveis acontece na circulação rodoviária. No mínimo, a irresponsabilidade de um grande número de condutores reflecte-se no prémio anual do seguro a pagar por cada um. Se não há cultura de responsabilidade, pagam todos, até os cumpridores.
“Errar é humano” é a frase que os jovens aprendem mais cedo a citar.
Depois da frase é só errar à vontade pois, quem é que nunca errou?
Se a esta lógica aliarmos a parábola dos “telhados de vidro” então temos “pano para mangas”.
Perante este quadro caberia à escola desempenhar o papel de normalizadora dos comportamentos e aferidora das reacções, orientando e dando bons exemplos. Não o tem conseguido, principalmente, devido ao efeito contra intuitivo das fugas para a frente por parte dos educadores.
Não existe um protocolo das linhas de conduta dos profissionais face à responsabilização e exigência que deveriam transmitir aos alunos de modo a prepará-los para a vida em sociedade. Aquilo que para uns é uma regra, para outros é uma imposição. A chamada de atenção é, muitas vezes, incompreendida pelo aluno devido à “novidade” da regra que sempre existiu mas não é cumprida. Não há controle do cumprimento das regras até à ocorrência dos conflitos.
A saída é a fuga para a frente. Não ver nem ser visto é condição para nos mantermos tranquilos e livres de conflitos. Só se molha quem anda à chuva. Não morreu ninguém, pois não? Então “siga a rusga” e assobiemos para o ar. Vivamos um dia de cada vez.
Por outro lado, se a responsabilidade não é ensinada na escola, em casa também não o é.
A presença dos mais velhos e o controle, daí resultante, dos comportamentos dos mais jovens praticamente desapareceu. O jovem está cada vez mais entregue a si próprio e os exemplos são derivados da informática, dos vídeo jogos e da televisão. Não havendo controle como pode haver responsabilização?
Os mais novos começam a constatar que as regras só se cumprem se daí resultarem vantagens. É o utilitarismo que conduz, muitas vezes, à irresponsabilidade. Face a isto, o sistema só pode melhorar se houver uma sanção após a delação das fugas à responsabilidade. E quem é que vai ser o “Big Brother”?
Este processo de irresponsabilização colectiva vai conduzir, mais tarde ou mais cedo, a um regresso a formas musculadas de condução das sociedades, leia-se défice democrático.
Para aqueles que acreditam nas vantagens da democracia e que a consideram o sistema menos mau de todos, aqui fica o nosso alerta e preocupação.

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