A cegueira de alguns acaba, a maior parte das vezes, por resultar na melhor visão para outros. Se esta não fosse uma verdade quase simples, era de certeza uma verdade quase inconveniente.
A remodelação hiper, super, maxi de um governo que se esboroa cada dia que passa, é assunto pelo qual podemos desfiar o nosso novelo de curiosidades. Se a confiança continua a ser uma atitude associada a um valor, a verdade, o nosso imaginário fende-se a cada segundo que passa. Mas não podemos esquecer o amor e, sobretudo, a paixão.
“Dizem que as mães/ querem mais/ ao filho que/mais mal faz/ Por isso te quero tanto/ e tantas mágoas me dás” – é a primeira estrofe da letra de um fado de Coimbra com o nome de SOLITÀRIO.
Se a letra não fosse antiga poderíamos concluir que se adaptava que nem uma luva ao actual estado da política em Portugal. Quase me atreveria a comparar esse estado com a expressão de senso deformado “quanto mais me bates, mais eu gosto de ti”.
O primeiro-ministro e o seu colégio usaram e abusaram destas estratégias emocionais na condução da governança. Mostraram inflexibilidade e autoritarismo na condução dos dossiers mais impopulares e o povo profundo aceitou e quase gostou. Perdoavam a maldade que era feita por troca do bem futuro.
Os sacrifícios foram encarados como se de castigos se tratassem. Ou seja, tínhamo-nos portado mal antes. Alguns, porque nem todos eram objecto das penalizações. Enquanto não tocasse a muitos, a vida ia andando.
Mas o barco começa a meter água. O mar está eriçado e a navegação à vista requer mais do que simples vontade. Exige-se competência, eficiência e, de preferência, muita eficácia.
Onde estão as concretizações das promessas e a distribuição da felicidade pela base social de apoio? Há fogos ateados por todo o lado e muito fumo de insatisfação.
Quase ninguém está satisfeito com ninguém. Navegamos num mar de esquizofrenia intelectual inaudito. Até as equipas de futebol de referência incutem défices de satisfação nos apoiantes.
Era preciso tomar aquelas medidas para melhorar os sistemas. Aí não podemos esquecer a hábil manipulação, por parte do governo, das invejas paroquiais e corporativas. Só que as compensações tardaram. A presidência Europeia acabou e o Tratado de Lisboa já foi esquecido. Caímos na real…
A realidade que fomos, solidariamente, construindo ultrapassou-nos. Não dependemos só de nós para construir o futuro. Não aprendemos sozinhos, os outros estão aí. Vai ser isso que nos vai ter de preocupar. Vivemos num mundo sem pruridos económicos e temos de sobreviver.
Sobreviver com dignidade e sem encenações.
Quando deixarmos de acreditar nos outros e a verdade passar a ser vista como um mero conceito ético pragmático chegou a altura de partir…
Ou de chegar à conclusão de que falhámos e devemos assumi-lo. Mais, devemos arranjar o que estragámos. Quem estraga velho, paga novo… que preste.
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