quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Matriz

De acordo com um dos maiores economistas portugueses, Ernâni Lopes, ministro do Governo de Mário Soares que preparou a entrada na então CEE, “…todos os momentos decisivos, de crise e de afirmação da existência de Portugal, mostram o peso concreto (político, económico e cultural) da utilização desta dinâmica geopolítica da contraposição entre o marítimo e o continental em que, do ponto de vista analítico, encontramos a chave da compreensão do fenómeno português: a única estrutura política, saída da Reconquista Cristã na Península Ibérica, que mantém a sua independência política face ao poder aglutinador de Castela.”

Se o país actual, como afirma António Barreto na sua série televisiva, nada tem a ver com o país de há 50 anos atrás, essa transformação foi no mínimo, contraditória e pontuada por mal-entendidos, sobretudo, no tocante à construção de uma matriz identitária.
A matriz identitária de uma sociedade, ou de uma organização, é desenhada pelos diversos posicionadores a que recorrem os povos, ou as pessoas, para se orientar e progredir.
Se analisarmos os factos no tempo, a opção da abertura de Portugal ao exterior, no início dos anos 60, vingou entre as elites económicas mas, sempre foi considerada perigosa pelos que nela viam o fim da nacionalidade. De facto, a matriz identitária do Estado Novo nunca considerou a comunicação com a Europa como traço estratégico.
Salazar recusou-se sempre a apanhar o Sud-Express na estação de Santa Comba Dão. Foram décadas de autarcia e obscurantismo na vida de um povo a quem tinha ficado pouco a que se agarrar. Sem o fado, sem o futebol e sem Fátima, a matriz não teria resultado.
A matriz identitária, definida pelo financista beirão, sobreviveu em Portugal nos últimos cinquenta anos porque nenhum movimento ideológico ou partidário conseguiu criar outra para se constituir como alternativa.
O 25 de Abril de 74 resultou da erosão da matriz salazarenta mas não a substituiu nem extinguiu, tentou escondê-la sem criar alternativas credíveis.
O 25 de Novembro de 75 foi um evitar de guerra civil a que se seguiu, devido à ascensão e manutenção de Ramalho Eanes, um fogacho identitário que desembocou no PRD, de Manuel Martinho, que morreu antes de se constituir como alternativa.
Mário Soares tentou pegar nas pontas da matriz mas enredou-se na necessidade de responder às exigências do FMI e da dívida pública, colocando-nos na CEE. Não houve tempo, nem arte para mais nada.
Cavaco Silva, o homem que não lia jornais portugueses mas era aceite lá fora. Sendo, também ele, resultado da matriz supracitada, quase que reunia as condições para redesenhar a identidade portuguesa. Houve dinheiro, estabilidade governativa e carisma pessoal. No entanto, faltou massa crítica aderente. Cavaco não conseguiu ganhar os intelectuais, com excepção, talvez, de Agustina Bessa Luís, Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura. Não foi suficiente e, sobretudo, o tempo passava sem se pegar na essência da matriz identitária portuguesa: o estar no mundo.
Virados sobre si próprios, os portugueses demoram tempo a aceitar que estão no mundo, para o mal e para o bem. Os milhões de emigrantes e, mais recentemente, o mediático José Mourinho, trouxeram ao de cima a capacidade de sabermos estar no mundo.
Urge apostar numa matriz que nos permita sem atavismos, outra vez, estar no mundo.
É que a matriz é muito mais que um ou alguns traços avulsos. É, fundamentalmente, um modelo mental que cada um de nós perceba e utilize no dia a dia para sermos felizes.

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