quinta-feira, 16 de junho de 2011

Os meios e os fins

A certa altura os menores pararam de trabalhar e esconderam-se no sótão da pequena fabriqueta de sapatos ali, mesmo ali, bem perto do centro de Felgueiras.
Era a Inspecção do Trabalho que vinha cumprir o seu papel após mais uma denúncia, provavelmente da concorrência mais próxima.
Hoje que nos queixamos da concorrência asiática também a denunciamos na sua caminhada pelo dumping social.
Como alguém disse recentemente em viagem ministerial, uma das vantagens comparativas da economia portuguesa é o preço da mão-de-obra.
Temos de admitir que as civilizações e as pessoas, uma após outra, ganharam a sua riqueza e notoriedade alicerçadas em mão-de-obra barata ou escrava.
Atenas só conseguiu o estatuto de civilização com a refinação dos cidadãos, leia-se discriminação social, racial e intelectual. Os surdos, por exemplo, eram eliminados. Os escravos seriam defendidos até ao último dracma.
Roma não teria tido circo sem gladiadores escravizados. Os patrícios eram amantes da luta entre os outros. Quem gostaria de morrer na arena se isso pudesse evitar.
Os coronéis do sertão, no Brasil, só à força e com escravos acumularam a riqueza da terra.
Nos E.U.A., os senhores do algodão, agora do petróleo, ganharam dinheiro que permitiu manter a guerra da Secessão. Antes, outros já tinham aniquilado os peles-vermelhas, visto estes não se deixarem escravizar.
Esta acumulação com base da mão-de-obra mais barata que há é, também, a mais rápida. Só é possível compará-la, em termos de rapidez, com a acumulação baseada na pirataria.
Que potência seria hoje a Inglaterra se o namorado de Isabel I, Francis Drake, não tivesse inventado a pirataria institucional. Roubar aos ricos para enriquecer a coroa inglesa.
Foram os corsários, legalizados temporariamente, que permitiram a formação do capital inicial da Companhia das Índias.
No entanto, a acumulação por si só não chega, é necessário expandi-la. A velha máxima “dinheiro faz dinheiro” não é fortuita. Os britânicos conseguiram montar uma estrutura multiplicadora da utilização do capital. As organizações britânicas, constituídas por ingleses, potência vencedora dos conflitos regionais, mas sobretudo por escoceses, reconhecidos pela sua avareza, foram estruturadas para ter sucesso.
Em complemento a religião anglicana não diabolizava o lucro, ao contrário das antigas potências católicas, que consideravam a usura e o lucro pecados capitais.
Por outro lado, a riqueza iludiu os espanhóis e os portugueses que não conseguiram estruturar as suas organizações de forma adaptada à concorrência. Quando se aperceberam estavam ultrapassadas e, sobretudo, perfeitamente decrépitas face à modernidade e agilidade das novas organizações britânicas.
Em simultâneo produzia-se conhecimento económico e social que sustentava tal superioridade. Adam Smith, David Ricardo, entre outros, “eram pagos para pensar”. E os resultados não tardaram. Depois da derrota da Armada Invencível espanhola e controlado o comércio marítimo internacional, em parceria com a Holanda, o Reino Unido iniciou o processo de utilização das riquezas portuguesas. E começou bem, pelo vinho…

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