segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A Educação

A destruição, resultante da Segunda Guerra Mundial, de parte da humanidade sensibilizou os seres humanos, que sobreviveram, a valorizarem a educação.
O nº2 da D.U.D.H releva-a sem rodeios:
“A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais”.
Para DIAS (2006, p.173), “esta relevância…vai erigi-la em primeira prioridade política na estratégia de reconstrução e desenvolvimento de cada Nação e da Comunidade das Nações”.
Assim, não nos admira que surjam as reformas do sistema educativo. Tais reformas iniciaram-se em Inglaterra e na França no pós 2ª Guerra Mundial, foram realidade nos E.U.A em 1958 e chegaram a Portugal nos anos 60 com Veiga Simão.
Subjacentes a tais reformas perfilavam-se, pelo menos, três grandes preocupações. Uma primeira preocupação era económica pois a prioridade era a reconstrução e para isso a formação dos recursos humanos era fulcral. Em segundo lugar surgia a igualdade e o advento da escola de massas. Finalmente colocava-se a preocupação cultural.
Toda essa conjuntura conduziu, como refere DIAS (ibidem, 174), a:
“…pela primeira vez na história, o nível de desenvolvimento educativo passar a ser superior ao desenvolvimento económico, e ao correspondente resultado negativo de desencadear os processos de desemprego e sub-emprego que rapidamente desembocam nos fenómenos que ficaram conhecidos como a contestação universitária e a crise mundial da educação (escolar).”
Concomitantemente ao esforço de valorização da educação veiculado pela D.U.D.H., a Organização das Nações Unidas, através da UNESCO, realizou, em 1949, uma conferência sobre Educação de Adultos. Nela foram sugeridas, para os países escolarizados, novas formas de reciclagem, formação profissional e formação contínua em contraponto à formação inicial. Para os países não escolarizados a educação de adultos foi entendida, a partir de 1960, como alfabetização funcional no sentido do desenvolvimento pessoal do próprio adulto.
Estavam reunidas as condições para que se começasse a perspectivar uma nova concepção de educação que, a partir dos anos 70, passou a integrar como “vertente essencial” a educação ao longo da vida, na versão anglo-saxónica, ou a educação permanente, na versão francesa (Cfr. DIAS, ibid).
Se à educação ao longo da vida associarmos a educação comunitária e a educação ecossistémica temos configurada a matriz de condições de desenvolvimento sustentado que deverá alimentar a educação de todos os seres humanos.
A educação ao longo da vida de cada um de nós não se pode pensar sem ser efectuada em comunidade. A educação ao longo da vida implica considerar que as tradicionais fases da educação (educação de infância, educação escolar e educação de adultos) são fases de preparação para as fases seguintes numa dimensão contínua de vida cada vez mais prolongada.
Por seu turno, a educação comunitária envolve a solidariedade de todos nós. A educação ao longo da vida abrangerá todos os seres humanos inseridos nas diferentes comunidades. A educação de adolescentes (Convenção dos Direitos da Criança art.º 1º) e a educação de adultos deve ser integrada na educação comunitária. A noção tradicional de professores e alunos será substituída pela de que “todos somos educadores e educandos” (DIAS, ibidem, p.175).
Quanto à educação ecossistémica ela envolve todos os componentes (físico, afectivo, intelectual, moral e ético) de toda a família humana. Os meus filhos dependem de mim, dependo dos meus colegas e eles dependem de mim. Todos dependemos de todos. É a educação ecossistémica.
Mas a educação não é só ensino. O ensino faz parte da educação. Educar é criar as condições de desenvolvimento da pessoa humana. Para FREIRE: “Educar é substantivamente formar” (1996, p.33).
O sistema de educação de adolescentes (designação adoptada por JOSÉ RIBEIRO DIAS para o sistema de educação de todos os seres humanos até aos 18 anos de idade) e o sistema de educação de adultos deveria redundar num processo de educação ao longo da vida que implicasse o desenvolvimento de todas as dimensões do ser humano (vontade, liberdade, sentimento e respeito).
Segundo MOSCOVICI (1997), “o homem pleno, feliz, de sucesso que chega a ter expressão maior como ser humano é aquele que desenvolve as quatro dimensões: a física, a intelectual, a emocional e a espiritual” (p.91).
Como educar?
Necessitamos possuir uma visão global do ser humano e apostar na construção do seu futuro. Na perspectiva da pesquisa de GOMES (2003), citado por DIAS (ibidem, pp.177-181), o lexema pedagogia, remontando ao étimo IndoEuropeu (radicais Pu e Ag), significa abrir caminho para a vida. Tudo começa no rebento. É essa a pedagogia que nos interessa.
Se, por outro lado, pegarmos no étimo grego (pais,-dos e agein), então já significa conduzir a criança. Essa pedagogia é a tradicional.
Estabelecendo uma similitude com os animais não nos esqueçamos que são eles os verdadeiros cidadãos do mundo. Atravessam-no de uma lado ao outro para procriarem (as migrações das aves e dos salmões e a epopeia para perpetuar a espécie). Nos animais tudo isto de crescer tem a ver com a transmissão da vida.
DIAS (ibidem, p. 182) afirma que: “Ninguém nasce ninguém, ninguém cresce ninguém, ninguém existe ninguém. A cada ser vivo é que pertence o próprio nascer e crescer, sobreviver e viver.”
Mais acrescenta que: “As funções dos pais estão subordinadas às funções dos filhos, o gerar prepara o nascer, o alimentar estimula o crescer, o defender preserva a vida, o formar confere-lhe plenitude. E não vice-versa.”.
Nos seres humanos tudo isto tem a ver com a consciência e a liberdade, com a compreensão e as relações humanas.
A educação é a formação de dentro para fora. É criar condições para que se expanda e desabroche a capacidade e a personalidade humana. Toda a obra de arte é um acto de formação.

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