segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Coisas

Os seres humanos são caracterizados por traços distintivos únicos relativamente aos outros seres vivos. Um deles é a inteligência.

Piaget investigou como é que se desenvolvia a inteligência no ser humano e conceptualizou as fases desse desenvolvimento. Da fase sensório-motora à operatividade abstracta o ser humano vai construindo um conjunto de esquemas de raciocínio, mais ou menos elaborados, que lhe permitem utilizar, em proveito próprio, a realidade à sua volta.

Curiosamente, uma das primeiras apropriações da criança, marcadamente sobrevivencial, é a do seio da mãe para se alimentar. Mas não só, a criança apropria-se de e conduz toda a gente. A criança chega a condicionar o destino dos que a rodeiam.

As crianças, até há bem pouco tempo, eram consideradas como “coisinhas” e não eram aceites como se de seres humanos se tratassem. Na concepção educacional de Durkheim dever-se-ia “…impor, à criança, modos de ver, de pensar e de agir, aos quais não teria chegado espontaneamente e que lhe são exigidos pela sociedade no seu conjunto e pelo meio social a que é particularmente destinada” (GILBERT, R, 1976, p.7).

As crianças eram educadas e controladas pelas mães.

Comigo aconteceu algo de semelhante. Nasci em casa e foi a minha mãe que me educou desde o berço. No princípio, também não era e não sabia. Tive que ser conduzido.

No entanto, tenho uma vaga ideia, construída de recordações e de histórias que me foram sendo contadas, de um dia, na praia de Matosinhos, ter fugido ao controlo do adulto mais próximo e ter sido dado como desaparecido em mensagem divulgada no autofalante da praia.

O controlo da criança começou a transformar-se com a Revolução Industrial, tendo sido construídos armazéns de recolha de crianças. Recentemente, o controlo externo à família ganhou nova acuidade com a necessidade económica da ocupação para as mulheres fora de casa.

Platão dizia que não há coisas nem seres humanos perfeitos. Para ele perfeitas só existiam as ideias.

Mas são as coisas, os recursos, que colocam os principais problemas de relacionamento entre os seres humanos. É que os recursos que necessitamos, para o crescimento das economias e desenvolvimento das civilizações, são finitos ou encontram-se em risco de extinção.

É este fenómeno da escassez, que justifica a existência da Economia como a ciência que estuda a adequação dos recursos escassos à satisfação de necessidades virtualmente ilimitadas. Quando a procura dos recursos excede a sua oferta criam-se condições para que o seu preço tenda a subir.

Foi com este mecanismo de mercado, de funcionamento fácil e rápido, que nos tentaram tranquilizar aquando do recente aumento dos combustíveis. Refira-se ainda que se aplica um mecanismo semelhante na fixação do salário no mercado do trabalho.

Sem dúvida que é atractivo resolver todos os problemas económicos utilizando um mecanismo ágil (Adam Smith, no século XVIII, designou-o por “mão invisível”) que tudo equilibra e que tudo resolve. O único grão na engrenagem é que as pessoas são recursos especiais.

De facto, é aberrante considerarmos as pessoas, as crianças e os adultos, como coisas. Não nos consideramos, em idade alguma, como objectos. Infelizmente ainda existem muitos seres humanos que são escravizados e tratados sem respeito pela sua dignidade. Um dos exemplos que mais se utilizam para ilustrar tal situação é o das crianças amarradas ao seu local de trabalho infantil para não fugirem.

Face a estas situações de exploração os seres humanos continuam a não conseguir fazer respeitar os compromissos que têm vindo a ser assumidos, ao longo dos tempos, em reuniões multinacionais, pela maioria esmagadora dos países da Terra.

O preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos do Homem (D.U.D.H.), assinada na sessão plenária da Organização das Nações Unidas de 10 de Dezembro de 1948, é claro quando refere:

- o reconhecimento da dignidade de toda a família humana como o “fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”;

- o “advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria” como a “ mais alta aspiração do homem”.

Estas ideias colocam-nos perante a nossa incapacidade de tratarmos todos os seres humanos com a dignidade intrínseca ao seu estatuto. Só serão valores fundamentais quando fizerem, efectivamente, parte integrante do relacionamento humano a nível global.

Todos nascemos com igual dignidade, no entanto, muitos de nós são tratados como coisas, como recursos descartáveis. A economia e a política têm contribuído muitíssimo para que as pessoas sejam objecto de cálculos e projecções.

Desde o início dos tempos que a especialização económica e social tem criado diferenças no acesso à riqueza e ao poder. Se no início a economia do clã era comunitária, rapidamente se avançou para modelos geradores de discriminação.

Hoje em dia, com o neo-liberalismo na moda, assiste-se a um aumento da “coisificação” das pessoas e dos seus direitos. Para as pessoas não interessa o que existia antes, o que interessa é evitar que o seu presente seja ainda mais duro. Se não se conseguem fazer respeitar os direitos, negoceia-se tal respeito em troca da manutenção da sobrevivência.

Face ao actual “choque petrolífero”, em grande parte resultante de fenómenos especulativos, um número importante de pessoas reagiu com mecanismos de associação que os poderes instituídos não conseguiram controlar no início.

A crise económica e o aumento da criminalidade violenta, no nosso país, andam de mãos dadas. A falta de coesão social compagina-se com o grau de concentração dos rendimentos. Quanto maior for a concentração menor a solidariedade entre o grupo dos mais pobres e o grupo dos mais ricos.

Não é possível gerar bem-estar com desemprego elevado e criação de riqueza diminuta. As decisões económicas tais como a fixação da taxa de juro, a regulamentação de acesso ao crédito e os incentivos à produção são tomadas, numa determinada conjuntura e num determinado modelo, por decisores escolhidos em função da competência reconhecida.

As pessoas, na sua dignidade, têm direito ao sonho que lhes foi prometido. Quem utilizou tal sonho com o objectivo de viabilizar interesses individuais e empresariais próprios deveria ser responsabilizado. Tudo se justifica porque a economia de consumo resulta da necessidade das empresas aumentarem a sua produção e, consequentemente, os seus lucros.

No entanto, o destino do homem “não é coisificar-se, mas humanizar-se” (FREIRE, 1974, p.64). Há que avançar para uma revolução pacífica fundamentalmente humana, cultural e pedagógica.

As pessoas não são estúpidas. As pessoas não são coisas. As pessoas têm dignidade mesmo que tal desconheçam. Todos nós temos vontade de ser felizes. É realmente preciso ter fé para acreditar que podemos ainda transformar os nossos próprios esquemas de raciocínio e de vida.

Partilhamos da perspectiva de Ribeiro Dias quando afirma que a mudança do mundo das coisas para o mundo dos valores operar-se-á, de acordo com o preâmbulo da D.U.D.H., “pelo ensino e pela educação”, implicando o esforço de “todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade” e quando a dignidade de todos os membros da família humana constituir “…um ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações” (DIAS, 2006).

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