Uma vez que a criança, para o pleno e harmonioso desenvolvimento da sua personalidade, deve crescer no seio da família (Preâmbulo da Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989), "aos pais ou outras pessoas encarregadas da criança que incumbe a responsabilidade primordial" (Art.º 27°, 2°) de as educar, sendo função dos educadores professores não substituí-los mas auxiliá-los (DIAS, 2007,p.3).
Como atrás afirmámos, a escola é o espaço da socialização secundária. Isso significa que a escola se posiciona numa fase de desenvolvimento do ser humano em que os valores humanos fundamentais já deveriam ter começado a ser objecto de transmissão. Se tal ainda não ocorreu, a reflexão, o sentido crítico, a ética, a solidariedade, a amizade e a lealdade, que são valores humanos por excelência, ficam relegados para segundo plano ou são objecto de disciplinas específicas dentro do sistema educacional.
O facto é que, infelizmente, os adolescentes chegam cada vez menos socializados em termos de valores humanos. Atravessa-se uma época caótica, na qual a degradação dos costumes e valores humanos é aceite com toda a naturalidade. As famílias enfrentam a falta de tempo adiando a comunicação e os afectos. A sociedade não consegue antecipar as consequências desses efeitos danosos.
É preciso perseverança e fé para recuperar o sistema educacional que tarda a assumir-se como alternativa credível à falência da família tradicional. A aposta, em nossa opinião, deveria centrar-se no investimento numa educação centrada nos valores humanos, que colocasse a ênfase da acção pedagógica na formação global do ser humano (o holismo, que considera a pessoa como um todo, fazendo parte do universo e participando activamente na recriação da vida).
Trabalhando nessa óptica, o sistema educacional poderá fazer com que os alunos assumam essa totalidade e possam ampliar os aspectos físicos, mentais, intelectuais, intuitivos e psico-espirituais de sua personalidade.
Já existem determinações legais que prevêem programas educacionais com essas características. Mas, são necessários exemplos pessoais que tornem interessantes e actuais os valores fundamentais da família humana.
Na perspectiva de MARQUES:
“ Se a criação de uma disciplina não pode constituir um bom instrumento para a educação em valores, qual é a alternativa mais adequada? Em primeiro lugar, importa que a escola, em todo o seu programa educativo, lectivo, extralectivo e de interacção, bem como no seu ethos e ambiente ecológico, se assuma, intencionalmente, como lugar de educação axiológica. Para o fazer é preciso assumir que a educação em valores não pode prescindir de nenhum destes traços: a sabedoria (conhecimento e reflexão), o carácter (entendido por Max Scheler como as aptidões duradouras da vontade), o autodomínio (entendido por Séneca e Marco Aurélio como a capacidade para controlar as paixões e as inclinações naturais, submetendo-as ao domínio da Razão e da Lei Moral) e a autodeterminação (vista por Kant como a capacidade que o sujeito tem de agir, respeitando princípios que todo o ser racional aceitaria e isto apenas porque é correcto fazê-lo, porque o dever deriva da própria necessidade racional, sem sujeição a outros fins)” (s/d, p.4).
Para FREIRE “não há educação fora das sociedades humanas e não há homem no vazio” (1974, p.35). O ser humano é um ser de relação e de contactos e “não está no mundo, mas com o mundo”(ibidem, p.39).
Ou seja, se não houver quem cuide da relação e dos contactos, o sistema de referenciação ético dos alunos ficará limitado à convivência humana, que pode ser muito rica em experiências pessoais, mas pode acabar por sofrer desvios de postura, atitude, comportamento ou conduta. Lembra-nos aquela sábia frase feita que a minha mãe me dizia: Junta-te aos bons e serás melhor que eles; Junta-te aos maus e serás pior que eles.
FREIRE é mesmo da opinião que “Estar longe, ou pior, fora da ética, entre nós, mulheres e homens, é uma transgressão” (1996, p.33).
Assim, quando os valores são encarados pelos jovens como simples conceitos ideais ou abstractos porque não os vivenciam nem participam em simulações de práticas sociais ou porque, pura e simplesmente, não se aplicam valores no seu quotidiano, o vazio ético e a não utilidade dos valores torna-se incontornável.
O psicólogo Daniel Goleman, no seu livro "Inteligência Emocional", considera o conceito da inteligência emocional como maior responsável pelo sucesso ou insucesso das pessoas. A maioria das situações de trabalho é pautada pelos relacionamentos entre as pessoas. Desta forma, pessoas com qualidades de relacionamento humano, como a afabilidade, a compreensão e a gentileza têm mais hipóteses de obter o sucesso.
Segundo GOLEMAN: "emoções são sentimentos que se expressam em impulsos numa vasta gama de intensidade, gerando ideias, condutas, acções e reacções. Quando burilados, equilibrados e bem conduzidos transformam-se em sentimentos elevados, sublimados, tornando-se, aí sim – virtudes" (1996, p. 53).
Também sobre esta questão das virtudes o Professor Ribeiro Dias nos avançou alguns dos seus pensamentos. A virtude é um hábito bom. A formação dada na escola deve inclinar-se mais para o lado do bem. Se se disser sempre a verdade, a verdade tornar-se-á num hábito. Um hábito é uma sequência de actos semelhantes. A conjugação dos diferentes hábitos constrói o carácter. Um hábito mau será um vício.
Um princípio básico para o desenvolvimento da inteligência emocional na sala de aula é o respeito mútuo pelos sentimentos dos outros e para isso é necessário que o professor saiba como se sente, se conheça a si próprio e seja capaz de comunicar abertamente as suas sensações e sentimentos.
O professor não deve negar as suas emoções negativas. O professor deve ser capaz de as expressar de forma saudável na comunidade que constrói com os seus alunos. O professor ao ensinar os alunos a reconhecer as suas emoções, ao saber categorizá-las e ao comunicá-las, fazendo-se entender, ajuda-os a serem responsáveis pelas suas próprias necessidades emocionais.
Conhecer os alunos é um processo que se inicia desde a primeira aula e que nunca termina. Quanto maior for esse conhecimento, maior será a eficácia da nossa acção pedagógica, pois podemos mobilizar cumplicidades, interesses, curiosidades, conhecimentos prévios, pormenores das histórias de vida de cada um, articulando-os com os conhecimentos que integram o currículo a ser desenvolvido.
Conhecer os alunos nos seus diferentes papéis sociais, cognitivos, afectivos e emocionais implica uma atitude de permanente investigação, por meio de observações, diálogos com as crianças e as suas famílias, avaliação contínua dos conhecimentos adquiridos, sondagem dos interesses delas e atenção às necessidades que elas expressam.
Perceber como o aluno se sente, sem que ele o diga, revela empatia, uma das características fundamentais da inteligência emocional, mas também que o aluno é importante para o professor. A criança e o adolescente, dificilmente, nos dizem em palavras aquilo que sentem, mas revelam os seus sentimentos pelo seu tom de voz, pela expressão facial ou por outras formas não verbais.
A partir do momento em que o professor reconhece as emoções do aluno (medo, raiva, ciúme, alegria, tristeza, vergonha), cria condições para aumentar a intimidade, transmitir experiências e compartilhar dificuldades. O aluno passa a sentir-se valorizado, legitimado nos seus sentimentos (mesmo que negativos) e fortalece a sua auto-estima.
O aluno sai reforçado na medida em que acaba por conceber novas estratégias para lidar com os conflitos, aprende a diminuir a agressividade nas suas relações com os outros e assume conviver de uma maneira confortável com os sentimentos negativos. Enfim, ele transforma um sentimento que o assustava em algo que passa a fazer parte da sua vida, não se censurando a si mesmo pelos seus sentimentos e julgando a decisão do que fazer com esses mesmos sentimentos.
A escola deveria reservar tempo e espaço nos conteúdos programáticos para iniciar os jovens em projectos de cooperação. A participação de professores e alunos em projectos comuns pode dar origem à aprendizagem de métodos de resolução de conflitos e construir uma referência para a vida futura dos alunos, enriquecendo a relação professor – aluno.
A influência da inteligência emocional sobre a educação é altamente positiva, pois chama a atenção para o facto de que as escolas não se devem preocupar apenas com a inteligência de cada aluno, mas também com o desenvolvimento da sua capacidade de se relacionar bem com os outros e conhecer-se melhor a si próprio.
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